Estamos em um ano sabático para conhecer o mundo e a nós mesmos. Para isso manteremos nossos olhos, mentes e corações atentos e abertos por onde estivermos. Toda semana faremos um relato do que passou e por onde passamos. Como tudo na vida tem dois lados, serão duas visões sobre os mesmos momentos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Índia: ame-a ou deixe-a

Bom pessoal,

Não amei, mas ainda estou aqui. Estamos na Índia, o país das contradições. Chegamos no aeroporto internacional Indira Gandhi, e fora daquele ambiente “esterilizado” do aeroporto, me deparei com a realidade. Chegamos de madrugada e não vimos o trânsito mas quando chegamos no bairro do nosso hotel, sinceramente, achei que tivesse entrado em uma favela. O hotel é excelente, simples mas bem acima do nosso padrão nessa viagem. O entorno é que é complicado. Mas não me entendam mal, não é perigoso, violento, é apenas Delhi. Uma realidade que você aceita ou rejeita. O nosso guia (lonely planet) diz que saindo do aeroporto existem dois tipos de turistas: os que aceitam, aprendem e se acostumam e os que não veem a hora de ir embora. Nem uma coisa nem outra. Não simpatizei, não me acostumei (ainda), mas não quero ir embora. E a contradição está no fato da pobreza, da miséria, da desorganização, do trânsito caótico e da população serem exatamente do mesmo tamanho da gentileza, respeito e cuidado com que estamos sendo tratados e do sorriso dos indianos. Acho que é impossível descrever o ambiente, a pobreza, o trânsito e as pessoas com clareza suficiente para que alguém de longe, distante, consiga realmente perceber a realidade. Só estando aqui para saber. Outra contradição é que existem muitas pessoas que se utilizam exatamente dessas qualidades para aplicar golpes nos turistas mais desavisados, alguns muito bem elaborados e que envolvem muitas pessoas. Uma pequena busca na internet e você vai conhecer alguns. Por isso, as vezes é difícil acreditar em tanta gentileza. E isso esta me deixando muito reativo a tudo e a todos.



Conforme nos planejamos e prometemos a nossos pais, contratamos uma agencia de turismo para viajar por essas bandas. Fizemos um roteiro e a agencia nos disponibilizou um motorista particular que vai nos levar para onde quisermos na hora que bem entendermos. É assim que se faz turismo na Índia. Tem gente que faz tudo sozinho mas seria demais para mim. Isso também esta sendo novo e um pouco estranho porque interagimos pouco com o mundo lá fora e ficamos muito tempo “na bolha”. Melhor assim, porque realmente não estou me sentindo muito à vontade, não consegui relaxar um só minuto. Não bati nenhuma foto com a minha câmera, por duas razões: a primeira é que não vejo ninguém portando uma câmera do mesmo porte que a minha e não sei se é seguro, às vezes bato com a câmera da Raquel. E a segunda é que não tenho vontade de fotografar nada, nenhum assunto me interessa. Consigo ver beleza no caos, mas não consigo ver na miséria. É muita gente em todo lugar, muita buzina, muita sujeira, muito lixo e muitos trombadinhas. Em todo lugar sempre tem alguém esperando uma oportunidade para conseguir tirar alguma coisa de você sem que você perceba. E eles são muito bons no que fazem.

No primeiro dia fechamos o pacote e o motorista já nos levou para almoçar em um restaurante de comida local. Aliás a comida é a melhor parte até agora. O pão Naan é bom demais. Depois fomos andar de riquixá e conhecer o Red Fort e uma Mesquita da Índia que fica logo em frente. Negociamos o preço e seguimos, mas exatamente nessa hora começou a chover e quando chegamos a chuva era tanta que nem entramos no forte. Ensopados seguimos para a Mesquita onde a entrada é livre e de graça mas cada câmera ou celular paga 300 rupias, o equivalente a 5 dólares, ou 30% do que gastamos no almoço. Ficamos na porta observando o vai-e-vem das pessoas. Voltamos para o estacionamento, pegamos o carro e fomos atrás de um banco e de um mercadinho para comprar água. Depois o motorista nos levou para o conhecer o parlamento, a casa presidencial e seus jardins e também uma loja de artesanato local. Cada especialidade tinha um vendedor próprio, então na loja tinham uns 15 vendedores diferentes tentando nos convencer a comprar enquanto andávamos. Mas eles não sabiam que nunca compramos nada. Demos uma volta completa e saímos. E voltamos para o hotel. Uma curiosidade é que o hotel tem umas três vezes mais pessoas trabalhando do que um hotel do mesmo porte em qualquer outro lugar do mundo. É muita gente. E só homens. Isso também acontece nos restaurante que fomos.

No estilo mochileiro, no dia seguinte, sábado, decidimos sair sozinhos para conhecer o Lotus Templo e a Connaught Place. O hotel fica a três quadras da estação New Delhi do Metro só que a entrada fica do outro lado dos trilhos. Portanto temos que passar andando por um viaduto. Somente nesse trajeto se aproximaram de nós três pessoas, em momentos diferentes, puxando conversa e tentando nos orientar para onde “deveríamos” ir. O primeiro disse que era dia de festa e que do outro lado do viaduto estava tudo fechado e que a multidão estava se encaminhando para o viaduto, portanto à tarde tudo estaria fechado, e blá blá blá. Respondi: “então tá então” e “obrigado”. Ele desistiu de nós. Os outros, resolvi utilizar uma técnica diferente: respondia tudo, educadamente, em português. Eles logo desistiram também. O que eles querem é nos levar para uma agência de turismo para nos vender pacotes e passeios superfaturados e que as vezes nem existem. Esse é um dos golpes daqui. Entramos no metro e não tinha muita gente na estação, mas os trens para todo lugar que queríamos ir estavam lotados. E como o metro tem vagão somente para mulheres, os outros tinham, majoritariamente, somente homens. Mas deu tudo certo. Fomos no templo que é em formato de uma flor de lótus, bem tranquilo e bonito. De lá fomos para a Connaught Place, que é uma praça circular com lojas e restaurantes no entorno. Almoçamos em um excelente restaurante, bem acima do nosso “padrão”, mas dentro do nosso orçamento. Comer aqui não é caro.

Depois desse dia vendo a vida como ela é, decidimos sair no outro dia com o motorista até porque os outros lugares que queríamos conhecer não ficavam próximos do metro. No domingo fomos conhecer o templo Gurudwara Bangla Sahib, onde eles servem comida de graça para quem quiser várias vezes todos os dias, no estilo bandejão, as tumbas de Humayun, que serviram de inspiração para o Taj Mahal e o templo Akshardham. Esse templo é o maior templo Hindu do mundo e tudo nele é muito cheio de detalhes. Muito bonito mas me pareceu mais um palácio do que um templo. Depois disso, o calor era tanto que voltamos para o hotel. Passamos o resto do dia na nossa bolha.

No dia seguinte saímos de Delhi com destino a Rishikesh, a capital mundial da Yoga. Não, não fizemos yoga. Acho que ninguém “faz” yoga, as pessoas vivem ela ou não. É um estilo de vida. A cidade não fica longe, uns 230km de Delhi, mas demorou de 6 a 7 horas. A viagem foi surreal. A estrada é infernal, o trânsito é anormal e a forma de dirigir não se aprende em nenhum manual. A rima forçada foi pra fazer uma gracinha, mas no dia não vi nenhuma graça. Buracos são uma constante, 60% dela é mão simples e metade tem pintura no asfalto, na outra metade não existe mão e contramão se não vier carro no contra fluxo. Circulam por ela qualquer coisa que tiver rodas, de carrinho-de-mão a caminhão. E acho que eles não entendem muito de física. Aquela lei básica de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço é testada a cada momento. E juro que vi ela ser quebrada algumas vezes. Chegamos sãos e salvos mas eu estava muito cansado e estressado, então ficamos no hotel e só saímos no dia seguinte.




No outro dia fomos andar por ai para conhecer lugares sagrados, ashram (centros de meditação e yoga) e nos acostumarmos com o ambiente. Começamos atravessando a Ram Jhula, a primeira das duas ponte suspensa sobre o rio Ganges, que deveria ser somente para pedestres, mas motos, vacas e macacos também utilizam. Do outro lado do rio é onde estão as principais atrações. É próximo da Ram Jhula onde fica o Parmarth Niketan Ashram, um centro de meditação e yoga. O lugar é bem famoso e procurado e é onde existe uma cerimônia todo dia. A outra ponte, a Lakshman Jhula, que fica mais perto do nosso hotel, deixamos para o período da tarde. Lá existem alguns templos e o melhor restaurante da cidade com vista direta para o rio e a ponte. O lugar é bem agradável e cheio de estrangeiros. Nos dois dias seguintes ficamos no hotel pela manhã e saímos apenas no final do dia para passear. Fomos acompanhar uma cerimônia nas escadarias do Parmarth. A cerimônia é bonita, cheia de cânticos seguidas de palmas e com todos sentados nos degraus da escadaria olhando para o rio. Quem puxa os cânticos é o Guru do centro. No final, candelabros de velas são acessos e passam de mãos-em-mãos e algumas pessoas colocam pequenas conchas de folha cheia de rosas e incenso no rio. Isso acontece todo dia no amanhecer e anoitecer. Como já era noite, voltamos para o hotel de tuk tuk.

Na volta para Delhi paramos na cidade de Haridwar, umas das setes cidades sagradas da Índia. Fomos ver todos banhando-se no rio, que ali, próximo da nascente, ainda é limpo. A devoção deles é muito grande e bonita de ver. Agora estamos de volta a Delhi e amanhã seguiremos para o Rajastão. A estrada estava melhor ou eu estava mais acostumado, não sei bem. Mas deu tudo certo. Pelo menos aquela lei da física que falei ficou comprovada hoje, não me restando mais dúvidas: um caminhão deu uma encostadinha no nosso carro numa rotatória já em Delhi. De leve. Nada demais. Só pra provar que as leis da física são mesmo universais. Nunca mais duvido.


Valeu.

A tão temida Índia:Delhi e Rishikesh

Índia, Índia... difícil falar sobre ela... a escrita não é fluida como costuma ser, mas sim fragmentada por vários sentimentos que ela nos causa. A Índia mexe com nossas emoções sem dó nem piedade. Ela causa desconforto em ver a pobreza e a sujeira escancaradas a céu aberto, desconfiança das pessoas que te encaram fixamente e a qualquer momento podem te aplicar um golpe, apreensão do trânsito caótico onde você acha que vai morrer a cada 5 minutos com o carro andando na contra mão e buzinando o tempo todo para os outros, que estão na mão certa, saírem da frente. Leva-se um tempo para processar tanta informação...

Dessa vez decidimos contratar um pacote com hotéis definidos e motorista particular todos os dias. Não gosto dessa opção, me faz sentir numa bolha, vendo as coisas lá de cima, não podendo sentir e viver o lugar. Mas foi a alternativa que nos daria respaldo e segurança para poder relaxar, à medida do possível, e ver se encontramos beleza por trás do caos eminente.

Delhi, nosso hotel estrelado é o Krishna, logo atrás

Chegamos por Delhi e no primeiro dia queríamos apenas “sentir” a cidade, fazer aquele reconhecimento de terreno tradicional que o Lucio sempre fala. A ideia era pegar o metro e dar uma voltinha, mas o dono da agência recomendou que fôssemos de motorista já que éramos novos no país. Fomos para Old Delhi onde pegamos um riquixá e andamos pelo Red Fort e Jama Masjid, a maior mesquita da Índia. O desconforto da chuva que começou assim que subimos no riquixa, mais o choque do nosso primeiro contato com a realidade fez com que o passeio fosse bem rápido, só para dar uma espiada.

No outro dia dispensamos o motorista para ter mais liberdade e fomos de metro. Tão cheio quanto o de São Paulo, com a diferença que existem vagões só para mulheres e os demais são mistos. Nem pensei na possibilidade de me separar do Lucio e ir no de mulheres, então fomos no misto que na verdade quase só tem homens. Difícil de se sentir à vontade. Aliás esse é um dos meus incômodos na Índia, só se vê homens, e muitos. Não vi uma mulher trabalhando, mesmo em funções tipicamente femininas como limpeza e cozinha. Asiática então, devo ser a única no meio dos 1,2 bilhões de indianos. O metro funciona, mas a tensão é uma constante principalmente quando chega e sai da estação, onde a vizinhança não é das melhores. Nem pensar em pedir informação e demonstrar que estamos perdidos, o negócio é andar para qualquer lado fingindo saber onde está. Fomos conhecer o Tempo de Lotus, da religião Bahai, aberto a todos, independente da religião que se pratica. Lá dentro não se tem nenhuma imagem para adoração, apenas um ambiente silencioso para cada um rezar a seu modo. Depois fomos para Connaught Place, a região central e mais arrumada da cidade. Seguimos a indicação de um restaurante do Lonely Planet e, apesar de caro, achávamos que merecíamos depois de nos aventurar pelo metro de Delhi.

Lotus Temple

Ok, já sabemos como é o metro mas com motorista é bem melhor. Assim, iniciamos o dia pelo templo Gurdwara Bangla Sahib e foi aí que descobri que as cores podem ser o contraponto da paisagem agressiva da Índia. O contraste do branco do templo com as cores das roupas despertou meu olhar que estava adormecido há 2 dias. A religião sikhs é praticada por 2% da população e prega a união das pessoas onde todos são iguais e bem vindos. Todos o dias voluntários preparam comida para distribuir de graça para qualquer um, independente de onde veio ou de qual classe social pertence. Pudemos conhecer a cozinha e ver centenas de pessoas almoçando. Se quiséssemos poderíamos comer também, mas ainda estava muito cedo para interações. 

Templo Gurdwara Bangla


Refeição para todos

Depois fomos conhecer o Humayuns Tomb que inspirou o Taj Mahal, muito bonito. E por fim o Tempo Akshardham, recém construído em 2005, onde vimos pela primeira vez um buda na Índia, o mesmo que vimos em Hong Kong, mas dessa vez com cara indiana. O templo é enorme, tem esquema rígido de segurança e não se pode tirar fotos. Bonito, mas eu achei grandioso demais para ser um lugar para reflexão.

Humayuns Tomb

Tivemos o primeiro furto da nossa viagem. No templo Gurdwara abriram a minha mochila e levaram minha nécessaire. Nada demais, basicamente alguns remédios de emergência, mas ficou aquela sensação ruim de invasão. Um aviso para ficarmos mais atentos.

De Delhi fomos para Rishkesh, a cidade mundial da yoga onde o Rio Ganges ainda é limpo e pode inclusive banhar-se nele. Bem menor e mais tranquila que Delhi, passamos uns dias em meio à natureza, macacos, vacas, sadhus (santos) e bichos grilos que passam meses meditando e comendo comida vegetariana.

Nós 2 em Rishikesh: Ram Jhula

 Lakshman Jhula
Templo ao lado da Lakshman Jhula

Aliás a comida indiana é irresistível em seu aroma e sabor. Quem precisa de carne com as especiarias da Índia e os pães naan sempre frescos e quentes? E quem precisa de talher se o melhor é comer com a mao usando o pao como apoio? Só paramos de comer o curry indiano quando chegou nossa primeira dor de barriga da viagem. Ficamos de molho uns dias deixando nosso organismo se acostumar com as novas bactérias.

Curry de vegetais

Frango e carneiro ao curry e pao naan

Acompanhamos uma cerimonia religiosa na margem do Rio Ganges no pôr do sol. Foram 30 minutos de reza cantada e no final as pessoas fizeram oferendas de flores e velas sobre o rio. Enquanto ia ouvindo a cantoria me lembrei de ter lido que em uma das vertentes religiosas daqui, não se faz pedidos, e sim agradece o que se tem. E foi aí que me dei conta que na minha andança pelo mundo já fiz muitos pedidos, pedi para as estrelas, para Alá, para Buda, para Jesus. Mas nunca agradeci. Aproveitei então para agradecer, simplesmente por estar aqui, nesse país tão bruto, vendo um mundo tão diferente e aprendendo a lidar com um sentimento a cada dia. E vamos caminhando...

 
Cerimonia às margens do Rio Ganges

"A Índia também pode ser poesia", falei para o Lucio quando tirei essa foto antes da cerimonia religiosa

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

China: um pouco de tudo

Em Pequim quem fica parado é poste

Bom pessoal,

Estamos na China, em Pequim, e a cidade parece que está toda em movimento: muitos carros, ônibus, bicicletas, motos, lambretas, riquixás, construções, reformas e pessoas para todo lado, indo e vindo. E se por ventura você estiver na rua, ou no metro, sem saber para que lado ir, é melhor sair da frente, pois tem muita gente atrás que sabe onde querer ir e elas não vão ficar esperando você se encontrar. Aqui, quem fica parado é poste.

Compramos um guia da China e além de muitas indicações ele também traz algumas dicas, e uma delas é a seguinte: quando for a lugares turísticos vá cedo para fugir da multidão de turistas chineses. Eu tenho outra opinião. Se você quiser mesmo fugir da multidão de turistas chineses, o melhor é não vir para a China. Simplesmente não existe lugar turístico com pouca gente, ainda mais no verão. Uma dica é tentar fugir (ou se esquivar) dos guarda-chuvas dos turistas chineses, usado quase que obrigatoriamente por toda mulher para se proteger do sol. Portanto o melhor é se acostumar com a multidão e seguir com ela aonde forem. Eles sabem aonde ir. E além disso eles são muito divertidos: conversam alto, conversam muito, riem mais ainda, de tudo, estão sempre em família, com muitas crianças, não se importam com nada, sentam onde dá, se divertem demais. São sem cerimônia.


Por-do-sol no Beirai Park
Chegamos aqui na quarta à tarde e fizemos nosso tradicional reconhecimento. Estamos em um hotel em uma Hutong (bairro antigo chinês) que fica próximo do Beihai Park que tem um grande lago e não fica muito distante da Cidade Proibida. O lago é bem bonito, cheio de restaurantes e bares no entorno e também cheio de barquinhos e pedalinhos. Na quinta, invés de turismo fomos cumprir mais uma obrigação: solicitar o visto indiano. E lá descobrimos que ele vai demorar sete dias úteis para ficar pronto. Com isso nossa temporada em Pequim dobrou de tamanho: de 6 para 12 dias. E outras cidades que iríamos visitar não vamos mais. Shangai é uma delas. Vamos privilegiar o interior da China: Xi´an, Chengdu, Guilin e depois Hong Kong. Queríamos ir também para o Tibet, mas para isso seria preciso uns 40 dias e nosso visto é de apenas 30 dias. Então fica para a próxima.

Pequim é cheio de atrações famosas e a principal delas é a Cidade Proibida que fica exatamente no meio da capital. Então na sexta pela manhã seguimos para lá. E chamá-la de cidade não é nenhum exagero. Os portões de entrada já são grandiosos e o interior é surpreendente. Prédios para todas as ocasiões (cerimônias, recepções, reuniões, etc) estão dispostos um depois do outro seguidos por aposentos, pátios e jardins. Lembranças de alguns filmes rodados ali vieram e tive a sensação de já conhecer alguns lugares. É tudo muito grandioso. Entre os prédios principais há um pátio para 100.000 pessoas. Devia ter mais ou menos essa quantidade de pessoas passeando por lá nesse dia. Não existe possibilidade de tirar uma foto sem que ninguém apareça. Saindo de lá, almoçamos e voltamos para o hotel. No final do dia fomos conhecer o parque das olimpíadas e principalmente conhecer o Estádio Ninho de Pássaro e o Cubo D´água. E pouco antes das 8 da noite todos as luzes foram acessas e podemos presenciar o espetáculo que antes só tinha visto apenas na TV. 

Entrada da Cidade Proibida com a famosa foto do Mao
Pátio Central da Cidade Proibida
No sábado fomos conhecer o Temple of Heaven, outro local obrigatório. O templo era o local onde o imperador orava, “falava” com os deuses e oferecia os sacrifícios. Lá também fomos conhecer um altar circular que é considerada o centro da terra (esse é o terceiro centro da terra que conhecemos). De lá saímos ansiosos para almoçar o famoso Pato de Pequim. Delicioso, gordo, caramelizado, acompanhado de um molho docinho, pepino e cebolinha e ainda de um pão/bolacha fininho que substitui o arroz. Depois do banquete fomos conhecer a praça Tian´anmen, em frente da Cidade Proibida, que tem de um lado o Museu Nacional, do outro o Great Hall of the People e no meio foi construído o mausoléu do Mao. É a maior praça do mundo.


Temple of Heaven
Praça Tian'anmen
O calor por aqui está quase insuportável, então no domingo fizemos um dia light. Fomos conhecer a região de Wangfujing, considerada a 5° Avenida de Pequim, cheia de lojas chiques e shoppings, mas também tem um mercado de rua popular onde encontramos vários espetinhos interessantes: de lula, polvo, escorpião marrom e preto, calango, cobra, estrela-do-mar, cavalo-marinho, e outros mais comuns como carne, frango e porco. Aqui não fiz como os chineses. Deixa pra próxima.


Espetinhos para todos os gostos
Na segunda fomos conhecer o Summer Palace. Posso dizer que os imperadores sabiam como aproveitar os verões. Muito bonito, grande e com vista privilegiada para um lago e a cidade. Foi o dia todo para visitar tudo.


Summer Palace


Na terça conhecemos o Templo Lama, o principal templo budista da cidade. São vários altares para vários budas. Na entrada recebemos um maço de incenso e a cada lugar acendíamos alguns. O principal Buda é um de 26 metros de altura, em pé, feito de uma única árvore. Esta até no livro dos recordes.


Lama Temple
Na quarta era o dia de ir para a Grande Muralha da China. E o dia amanheceu chovendo. Inacreditável. Estamos aqui a uma semana e no único dia que chove é o dia de ir na muralha. Como contratamos um tour, pois fomos fazer um trekking, fomos bem cedo para o ponto de encontro. Era apenas uma chuvinha fina daquelas que você fica na dúvida se precisa ou não de guarda-chuva. Seguimos então, e fui com a esperança de que lá na muralha o clima estivesse melhor. São mais de 2 horas de viagem a partir de Pequim. Mas minhas esperanças foram minguando com o passar do tempo até que acabaram. Quando chegamos, além de chovendo estava uma nevoa que não se via nada além de 20 metro. Subi na muralha com um misto de decepção e indiferença pelo que não conseguia ver. Se teve uma vantagem é que não tinham turistas nesse pedaço da muralha. Seguimos caminhando, subindo e descendo e o guia tentando explicar tudo com um inglês além da minha capacidade de entendimento, ou vontade. Mas minhas preces foram ouvidas e do meio para o fim do passeio o tempo melhorou, a nevoa se foi e conseguimos ver a muralha serpenteando as montanhas de leste a oeste rodeada de muito verde. Construída ao longo de mais de 2 milênios por motivos defensivos em função das guerras, hoje é um símbolo da perseverança do povo chinês. Impressionante.


Muralha da China
Na quinta visitamos mais uma Hutong e fomos em uma região famosa pelos bares e shoppings: Sanlitun. E na sexta mudamos de hotel. Depois de nove dias hospedados no estilo mochileiro (a janela do nosso quarto era para o corredor interno do hotel), nos demos um descanso e fomos para um hotel 4 estrelas numa região mais chique da cidade (Chongwenmen). Como a intenção era aproveitar o hotel, assim fizemos, ficamos a maior parte do tempo lá, aproveitando a vista do 15° andar, saindo apenas para comer, dormindo a tarde, sem as multidões. Foi um dinheiro bem gasto com certeza.

Valeu.



O interior da China

Bom pessoal,

Na segunda pela manhã pegamos nosso passaporte e seguimos de trem para a cidade de Pingyao. A promessa era conhecer uma cidade antiga da China, muralhada e cheia de história. A cidade antiga é assim mesmo mas do lado de fora tem uma outra cidade sendo construída. E isso nos causou uma certa confusão na chegada. Olhei no mapa e a estação de trem ficava bem próxima da entrada da cidade antiga e próxima ao hotel. Mas chegamos em uma estação que ficava no meio de um milharal. Pensei que estávamos na cidade errada, mas era impossível pois tinha confirmado com a atendente do trem se ali era ali mesmo e era. Aquela era a estação nova que ficava fora da cidade e fora do guia Lonely Planet que temos. Procuramos alguém que falasse inglês e nada, até que a Raquel colocou a cara dentro de um ônibus e perguntou se alguém falava inglês e tinha uma mulher que falava. Ela é chinesa mas vive nos EU e estava visitando a região com a mãe e o filho que é americano. Ela nos explicou sobre a estação e disse que poderíamos segui-la pois ela estava indo também para a cidade antiga. Ufa!! Chegamos e confirmamos as expectativas. Andamos na muralha, visitamos alguns templos e conhecemos antigas casas comerciais que agora são museus. Com muitas lojinhas e restaurantes é uma cidade preparada para o turismo, mas mais para o turismo interno. No centro de informações turísticas ninguém falava inglês. Mas os donos do nosso hotel falavam muito bem e nos ajudaram muito.


Pingyao

Muralha da cidade de Pingyao

Rua de Pingyao
Nosso próximo destino era Xi´an mas ainda não tínhamos os tickets de trem. Então no primeiro dia em Pingyao fomos na estação antiga para comprar os bilhetes. Sabíamos que seria difícil encontrar assentos disponíveis, mas aqui eles vendem também tickets para quem quiser viajar em pé (os trens são modernos e confortáveis). Como a viajem era curta, de 3 horas, e nossa única exigência era viajar no primeiro horário (10am), se fosse sentado ok, se não, ok também. Só tinha eu com cara de ocidental na bilheteria da estação e chamei muita atenção. A Raquel aqui é quase local, tem gente que vem até pedir informações para ela. Compramos bilhete para ir de pé. Ainda no hotel em Pingyao, na hora de ir para a estação, conhecemos a Laura, americana de San Diego que está viajando por 2 meses na China. Ela também ia para Xi´an no mesmo trem (só que sentada) e foi para a estação conosco no mesmo taxi. Muito simpática, nos demos bem desde o primeiro momento. No trem, ela deixou o assento e veio conversar conosco sentada no chão do trem.

A viagem foi rápida, nem notamos, e da estação de trem pegamos o metro e seguimos para o hotel. Ficamos em um hotel em frente à Torre do Sino mas sem elevador. Nosso quarto era o último do corredor (23) do último andar (5° andar) mas com a melhor vista: de frente para a Torre. Nos encontramos novamente com a Laura próximo ao hotel para almoçar e conhecer o bairro muçulmano que é bem famoso. A cidade é bem grande e moderna e, é redundante dizer, com muita gente. O bairro muçulmano é um misto de feira marroquina com chinesa, com muita gritaria, buzinas e comidas de rua. Passamos o dia juntos e vamos nos encontrar novamente em Hong Kong no início de setembro.


Bell Tower em Xi´an
O que mais me impressionou em Xian foi a poluição do ar. Em São Paulo, às vezes a gente quase consegue “ver” o ar que respira. Às vezes, no céu, se vê uma nevoa cinza, lá no horizonte por causa da poluição. Aqui não existe horizonte, ou mesmo céu. Aqui quase se consegue “cortar” o ar que se respira. Fiquei o tempo todo com uma dorzinha de cabeça que não sei dizer se era real, por causa do ar, ou psicológica por causa da preocupação de estar respirando aquele ar.

No dia seguinte fomos conhecer os Guerreiros de Xian. A grandiosidade do local impressiona mais do que os guerreiros, propriamente dito. Já os tinha visto em uma exposição em São Paulo, portanto nada de novo. A história por trás é bem mais impressionante. Perdemos o dia todo para ir. Primeiro ficamos mais de uma hora na fila do ônibus, mais uma hora de translado e mais uns 30 minutos até encontrar a bilheteria, mais duas horas para conhecer tudo e mais uma hora e meia para voltar. Foi cansativo. Mas o que mais me impressionou em Xian foi mesmo o lado negativo: a poluição do ar. O melhor daqui foi ir embora. Pode ser que seja uma coisa excepcional, fruto da combinação de vários fatores como falta de chuva e vento, o verão, etc. Se sim, esqueça tudo que falei.


Guerreiros de Terracota
Daqui fomos de avião para Chengdu. De trem ia demorar 16 horas e de avião foram apenas 1,5 horas. É a cidade do Panda Gigante. Aqui tem um centro de pesquisa e reprodução do Panda Gigante. Vimos pandas adultos, adolescentes e recém-nascidos. O centro foi uma excelente ideia para tentar reverter o quadro de extinção, pois o seu habitat natural foi e continua sendo muito devastado, mas no final das contas o lugar mais parece um zoológico de um bicho só. Para ir e vir tomamos dois ônibus urbanos de excelente qualidade. Só que na volta o motorista me deixou um pouco estressado. Sabe quando uma criança de 2 anos ganha de presente aquele sapatinho que o solado acende e apita? Que não quer tirar do pé nunca? E os pais ficam loucos? Então, o motorista tinha acabado de ganhar sua primeira buzina. Só pode. Ele buzinava para o vento, para qualquer coisa. Mas ele não foi o único, só o primeiro.

A outra grande atração da região fica a 2 horas de ônibus, em Leshan: O Buda Gigante. É o um Buda (sentado) de 70 metros cavado num penhasco às margens do encontro de dois rios. A entrada do lugar é pelo alto do penhasco e para ver o Buda tivemos que descer por uma escada na lateral direita dele desde a cabeça até o pé. Acho que esse sim deve ser o maior Buda de todos, em todas as categorias. Magnífico. O motorista do ônibus municipal aqui era o contrário do outro: calmo, tranquilo, lento, e com poderes telepáticos: ele conseguia saber se alguém ia subir ou descer sem que ninguém desse qualquer sinal. Aliás o ônibus não tinha botão ou corda para dar sinal. Fiquei prestando atenção em tudo no ônibus e não sei como ele conseguia.


Buda em Leshan


No outro dia era o dia de viajar para Guilin, mas como o voo era só à noite, pensei em ir conhecer o sistema de irrigação mais antigo do mundo em funcionamento. Ele foi construído para evitar as enchentes que devastavam os campos de arroz e acabavam com tudo. Eles construíram diques, dividiram o rio em dois e fizeram canais para escoamento e distribuição da água. Sabe esse negócio que todo janeiro acontece em São Paulo e ninguém conseguiu resolver? Pois eles construíram o deles há 2.200 anos atrás e funciona até hoje. Mas o dia amanheceu chuvoso, com uma garoazinha, e a cama tava quentinha, confortável... Não fomos. Deixa pra próxima.

Valeu.




Guilin: Um anjo e outras aventura

De Chengdu para Guilin de trem são exatamente 25 horas (a região é muito montanhosa) portanto, novamente, fomos de avião mesmo. Apesar de nossa viagem ser de um ano não temos todo o tempo do mundo, se é que você me entende. Aqui na China nosso visto é de 30 dias. No avião sentei na cadeira do meio e no corredor sentou um rapaz chinês. Automaticamente peguei a revista na minha frente e comecei a “ler”. Apenas as manchetes tinha tradução para inglês, o resto era em chinês. Quando o rapaz abriu a revista dele vi que era tudo em inglês e fiz cara de surpresa. O cara notou e disse que tinha pensado que eu sabia ler em chinês. “Não, eu só vejo as fotos”. Conversamos a viagem toda sobre vários assuntos e ele no final deu algumas dicas. Chegamos quase meia-noite no hotel e fomos dormir pois no dia seguinte começava nossa primeira aventura: conhecer o vilarejo de Ping´an, ao norte de Guilin. É um pequeno vilarejo no meio dos terraços de arroz, um dos mais famosos postais da China.

Saímos do hotel antes das 8 para tentar pegar o ônibus, seguir para outra cidade e de lá pegar outro ônibus para a entrada do vilarejo (não circulam carros ou motos em Ping´an). Mas existia outra opção, um pouco mais cara mas que nos levava direto para o vilarejo (entrada). Não é o transporte oficial mas longe de ser clandestino, acho melhor chamado de alternativo. Pelo que a tiazinha explicou, ou eu entendi, era um ônibus e partia as 9 em ponto: compramos. Mas na verdade era uma van e saiu as 9:30. O atraso de deu porque eles estavam esperando mais duas pessoas, até aquele momento eram somente eu e a Raquel. Era um casal, ele canadense e ela chinesa (nosso anjo). Não imaginava o quanto eles seriam importantes nessa nossa primeira aventura. Seguimos de van por quase 2 horas até que chegamos na estrada que leva ao vilarejo. Mas tinha uma pedra no meio do caminho. Na verdade tinham várias. Houve um deslizamento de terra e a estrada estava bloqueada. Mas tinha solução disse o motorista da van: você desse aqui, atravessa essa parte da estrada a pé até o outro lado e lá você pega outra van até a vila. Entendeu? Explicado em português fica fácil. Nem o motorista da primeira van, nem o da segunda, nem mais ninguém falava inglês, apenas nosso anjo. Ninguém tinha nos falado nada sobre esse pequeno detalhe. Outro detalhe era que tínhamos que pagar pela outra van após uma pequena negociação. Nosso anjo nos explicou tudo, negociou e foi conosco no mesmo carro até nosso vilarejo, apesar do destino final deles ser outra vila. Estava me sentindo enganado pela tiazinha que nos vendeu a passagem até o vilarejo por não nos dá qualquer informação adicional sobre o caminho e aos mesmo tempo muito agradecido pelo anjo que ela tinha colocado do nosso lado. Agradeci muito pela ajuda, muito mesmo, mas esqueci de perguntar o seu nome.


Terraços de arroz em Ping' an

Vilarejo - à direita nosso hostel
Finalmente na vila nos deparamos com um dos lugares mais bonito que vimos na China. E olha que essa não é nem a melhor época para conhecer os terraços de arroz. Agora o arroz está alto e verde. No final de setembro ele vai estar seco e dourado. Essa é a melhor época. Mas mesmo assim é muito bonito ver aqueles degraus gigantes morro acima e morro abaixo serpenteando tudo ao redor, acompanhar a vida simples do vilarejo que não tem uma única rua sequer, onde só existem degraus para todos os lados e ver a China em um outro ritmo. Dormimos uma noite apenas e no dia seguinte seguimos para Yangshou, ao sul de Guilin. Mas sabíamos que não seria fácil chegar lá por causa dos problemas na estrada, as negociações e os possíveis desentendimentos. A primeira negociação foi fácil e pagamos menos que no dia anterior mas a segunda estava sendo bem difícil, cara e com destino incerto (não sabíamos se estavam nos vendendo exatamente o que queríamos comprar). Até que nosso anjo chegou e todos os nossos problemas acabaram. Ela, que tinha reserva em uma van para voltar para Guilin, ligou para o contato e pediu mais dois lugares mas a van estava lotada. Mesmo assim ela conseguiu lugar em outro carro da mesma empresa, com horário certo, mas elástico (a qualquer momento entre 11h e 13h). Eles se foram e ficamos aguardando nossa van. Pouco tempo depois o namorado dela voltou e nos chamou para ir com eles pois tinha vaga no carro, segundo o motorista. Quando entramos no carro ela disse que ficava mais confortável e tranquila se fossemos com ela. Mas quando as outras pessoas começaram a chegar faltou lugar. Pelo que parecia não havia mais lugares disponíveis, o motorista tinha se enganado. Um princípio de discussão aconteceu e perguntei se havia algum problema e ela respondeu que era melhor não saber. Quando achei que iríamos descer e pegar a outra van, ela e o namorado desceram do carro e nos disseram para seguir naquela van que eles iriam depois no outro carro. Não acreditei. Ela preferiu ficar mais tempo lá só para que nós fossemos da forma mais segura possível. Ela tomou a decisão sozinha não dando tempo para que contestássemos nada. Tenho certeza que se ela não estivesse conosco no dia anterior e naquele dia, iriamos conseguir chegar onde queríamos de qualquer jeito. Mas anjos não existem para missões impossíveis e sim para facilitar, ajudar e direcionar nossos caminhos. Foi isso que ela fez por nós. Muito obrigado. Como não sei seu nome vou chama-la de Maria. Conheço alguns anjos chamado Maria: pessoas de bom coração, simples e que sempre veem o lado bom vida. Maria é um bom nome para um anjo da guarda.

A maior parte das pessoas que estavam na van também iam para Yangshou, nosso destino final, e nos ajudaram a chegar lá. Quase todos falavam um pouco de inglês. Chegamos em Yangshou no final do dia e ficamos pela cidade. No dia seguinte foi nossa segunda aventura: pegamos uma bicicleta e fomos passear por ai. Esse é um passeio obrigatório em Yangshou. Compramos um mapa da região e partimos. No caminho compramos uns pães para comer durante o passeio. O caminho era acompanhando o rio onde as pessoas fazem a descida em “jangadas” de bambu. Chegando ao final da trilha e achamos que era pouco. Decidimos continuar para o outro lado para conhecer o Rio Li, a principal atração da região. O caminho era bem mais longo que o primeiro e o sol estava de rachar. Para completar não tinha absolutamente ninguém fazendo o mesmo caminho. Passamos por uma vila onde compramos água, campos de arroz, rodovias, e quando estávamos perdidos, entramos em outra vila para pedir informações. Primeiro encontramos dois meninos que ficaram mais interessados nos cabelos do meu braço do que no mapa que tentava mostrar. Depois encontramos um casal de idosos que nos orientaram a direção. Vale lembrar que nosso mapa era em inglês e chinês, o que facilitou muito nossa vida. Seguimos caminho e finalmente, depois de algumas horas, encontramos o Rio Li com suas montanhas. Foi o dia todo encima da bicicleta, um dos mais cansativos e um dos melhores, junto a natureza, sentindo o cheiro de mato e ouvindo o canto dos pássaros.


Arrozal em Yangshou
Passeio de Bamboo Boat
Navegando pelo Rio Li
No dia seguinte passamos a manhã no hotel arrumando a mochila, pois viajamos nesta mesma noite para Hong Kong e aguardando o momento do principal passeio: navegar no Rio Li, a principal atração da região (o desenho do rio e das montanhas está na nota de 20 yuans). Esse foi o dia mais quente de toda a Ásia. Fazia 37º na sombra e umidade de quase 90%. O passeio foi em umas jangadas que pareciam de bambu mas eram de PVC mesmo. Subimos e descemos o rio passando pelas principais paisagens. Voltamos para a cidade, jantamos e fomos pegar o ônibus, nossa terceira aventura. Era um ônibus noturno e o ônibus não tinha cadeira, eram camas. Três fileira de camas-beliche. Nunca tinha visto um ônibus com camas. Fomos premiados e ficamos no fundão onde se tem um pouco mais de espaço, porque as outras camas eram bem pequenas. Mas no fundão, como não tem corredor ficam 5 pessoas. Tive pena do belga que ficou do meu lado pois ele tinha quase 2 metros e também das pessoas que estavam próximas dos meus pés: todos tem que tirar os sapatos na entrada do ônibus e eu estava desde de manhã com aquela meia. Acho que eles não reclamaram porque desmaiaram logo no primeiro momento. No final das contas foi uma viagem bem tranquila, bem dormida e sem percalços. Recomendo.

Chegamos em Hong Kong que é China mas não é. É um estado independente da China. E depois que você chega e conhece, definitivamente, Hong Kong não é China nem aqui nem na... nem na... nem no Brasil. Cidade grande moderna, velha e nova ao mesmo tempo. Metro pra todo lado, ônibus de dois andares como os londrinos, transito mais organizado e para quem gosta de comprar eletrônicos, gags e relógios (original ou “good copy”), acho que aqui é o paraíso. Nunca vi tantas relojoaria na minha vida. Loja da Rolex tem em cada quarteirão na região de Mong Kok, onde ficamos. Assistimos a sinfonia de luzes na baía, fomos até o The Peak (ponto mais alto da ilha), andamos de bondinho, conhecemos o maior buda de bronze (ao ar livre), compramos e também enviamos uma caixa com coisas que não queremos mais para o Brasil (chega daqui a 2 meses, se chegar).


Vista de Hong Kong


Vimos de tudo na China: cidade grande, vilarejo, natureza, bichos, uma maravilha do mundo, palácios e templos. O que mais impressionou aqui foram, primeiro a grandiosidade de tudo: do aeroporto, da estação de trem até as praças, lojas e restaurantes, tudo é muito grande, feito para multidões. E segundo o povo chinês: são sempre alegres, divertidos, simples e muito receptivos. Xiexié.


Valeu.

Estamos na China


Beijing

Estava bem ansiosa para chegar na China. Na verdade, acho que estava receosa. De tudo que a gente ouve por aí, dos costumes diferentes, da noção de higiene, da dificuldade de comunicação, das comidas duvidosas, dos chineses infinitos e do calor de agosto. De tudo, a única coisa que me incomodou foi a multidão, muito chinês em todos os lugares. Aqui impera a lei da sobrevivência, não tem essa de ser gentil e esperar o pessoal sair do metro antes de entrar, ou deixar a velhinha passar na frente, ou dar um passinho pra trás e esperar a multidão acalmar... ela nunca vai acalmar. Ficar parado é a certeza que será atropelado ou pela multidão ou pelo carro ou pela moto ou pela bike ou pelo riquixa, qualquer coisa que esteja em movimento. Aliás tudo sempre está em movimento, dá a sensação que a cidade roda sem fim, e no meio da bagunça, você aprende a rodar também. Aqui o negócio é, se não pode contra eles, junte-se a eles, dando uma empurradinha aqui, outra ali, uma furadinha de fila lá na frente e tudo fica bem.  Eles não esquentam a cabeça. Nós também não.

Aqui o turista convencional é a família com pais, filhos e avós. Eles sempre carregam uma sacola de comida e água pra cima e pra baixo. Bateu a fome, senta onde dá e come. E não é um lanchinho, é um banquete. Andam em grupos, tiram fotos, falam alto, dão risada, fazem bagunça. Quando cansam, sentam no chão, tiram o sapato, levantam a camisa para refrescar a barriga (os homens) e descansam. Felizes. Eles sim, sabem fazer turismo.

Beijing foi nossa porta de entrada. Inicialmente planejada para ficar 6 dias, ficamos 12 devido ao tempo de processamento do nosso visto indiano (nossa próxima trip). Nada mal, porque com tantas coisas para ver e fazer, uma semana seria muito pouco para conhecer essa cidade.

Dividimos nossa estadia em 2 momentos. O primeiro foi no esquema que estamos acostumados, andar muito o dia todo, conhecer as atrações turísticas, comer onde dá e se hospedar em um hotel simplesinho, no caso em uma hutong, que são vilas antigas da classe média/baixa e permanecem como eram, com as ruas estreitas sem calçada, comercio bem local onde só tem uma portinha com um amontoado de coisas para vender, velhinhos jogado carta e conversa fora na rua. Curioso que antes as casas não tinham banheiro e os moradores utilizavam banheiros públicos nas ruas. Hoje continua assim.

Hutong, perto de onde ficamos hospedados

Iniciamos pela Forbidden City. Foi a primeira amostra de grandeza que vimos na China. Começa no muro vermelho com a foto do Mao sobre a entrada principal e continua até onde a vista pode alcançar com inúmeros pavilhões, templos e pátios. O pátio interno do filme “O último Imperador” é aquilo mesmo, gigantesco, onde realizava-se cerimônias para 100.000 pessoas.

Nós 2 na Cidade Proibida

Summer Palace foi o palácio de verão dos imperadores chineses. Redundante dizer que é enorme... entre templos e pavilhões, passeamos por uma rua às margens de um rio que foi o lugar mais fotogênico do parque.  

Summer Palace

Vila simpática dentro do Summer Palace

Temple of Heaven e Lama Temple foram outros dois destinos obrigatórios entre tantos templos espalhados pela cidade.

Reverências no Lama Temple, o templo dos incensos

Enfim o dia para visitar a Grande Muralha da China. Aqui contratamos um passeio para nos levar até uma parte não restaurada do muro e de difícil acesso, para evitar a multidão de turistas. Dos 12 dias que passamos aqui, choveu um único dia, que foi esse. Mesmo assim pudemos andar sobre a muralha e ver, para todos os lados que olhávamos, trechos sem fim dessa construção que desafia a nossa lógica.

Nós 2 na Muralha da China

Além dessa parte mais histórica, Beijng também tem bairros modernos, vários shoppings, marcas internacionais, como qualquer cidade grande. O Parque Olímpico com o estádio Ninho de Pássaros e o famoso Cubo d’água são bons exemplos do contraste futurístico da cidade.

Comer tem sido uma diversão. Aqui não se pede um prato para cada, e sim vários para se compartilhar. Na primeira vez pedimos só o pato de pequin e a garçonete disse para pedirmos outros pratos se não ficaríamos com fome. E assim tem sido, uns 3, 4 pratos por refeição, em geral uma porção de dumpling, dois tipos de carnes e um yakissoba ou arroz primavera. De novo, temos comido mais do que deveríamos, nossa esperança é que os próximos destinos sejam mais difíceis, e então estamos fazendo nossas reservas.

Tem uma rua, Wangfujing, com uma feira de comida daquelas que imaginamos quando pensamos na China, com espetos de escorpião, cavalo marinho, estrela do mar e afins. Não, não foi dessa vez que experimentamos essas iguarias.

Depois de ver tudo isso, ainda não tínhamos conseguido o visto da Índia, e então começa Beijing segundo momento. Tiramos férias da mochila, abrimos o caixa dois e mudamos de hotel. Passamos 3 dias em um hotel chique, em uma área central e bem urbana da cidade. Ah, como é bom ter um quarto grande, lençol branco sem ficar na dúvida se foi lavado ou não, banheiro grande com toalhas felpudas sem nenhum furo, poder tomar banho descalça e ver canais de TV internacionais... passamos esses dias de folga do sabático, sem a obrigação de fazer passeios, curtindo o hotel, tirando uma soneca à tarde.

E assim terminamos essa grande cidade. Um bom início de China, conhecendo um pouco de seus costumes com a facilidade de uma capital. Interior, lá vamos nós!!!

Pingyao, Xian e Chengdu

No nosso roteiro queríamos ver um pouco da China tradicional mas sem passar pelos perrengues de ir para o interiorzão, então fomos para Pingyao, uma vila meio “Disneylandia”, feita para encantar o turista, mas que preserva suas construções antigas e que nos fez ter uma ideia da China de outrora.

Pingyao fica a 4 horas de trem rápido de Beijing, caminho para Xian, nossa próxima cidade. Descemos na estação de trem recém construída, tão nova que nem é citada no guia. E para nossa surpresa, ou desespero, a estação era longe da cidade, no meio do nada e com um monte de chineses olhando o “casal sensação”, Lucio e sua cara de forasteiro com a barba por fazer (pêlos em geral chamam muita atenção dos chineses, que são desprovidos deles), e eu com total cara de chinesa que não entende nada do que falam. Mas na verdade, acho que o mais interessante para eles é ver um ocidental com uma "chinesa"... Bom, depois da dificuldade básica de comunicação onde ninguém nos entende e nós não entendemos ninguém, encontramos uma chinesa que mora nos Estados Unidos e nos orientou a tomar o ônibus local para a cidade, aqueles que só sai quando o ônibus enche. E que o ar condicionado é um ventilador de teto em cima do motorista. Seja bem vinda ao interior!

A cidade é cercada pela muralha mais bem preservada da China em uma extensão de 6 Km, e todas as construções são restauradas e/ou preservadas servindo de hotéis, lojas, restaurantes. Compramos um passe que dava direito a visitar 19 atrações incluindo templos de diversas eras, casas antigas que hoje são museus e uma caminhada pela muralha. Mas o melhor não estava à vista dos turistas, e sim escondido nas ruelas onde vimos cenas típicas do que imaginamos ser uma vida simples no interior da China: casas antigas de verdade, muita poeira, bicicletas, comércio na porta da casa, velhinha agachada pesando pimenta na balança, velhinhos jogando baralho. Fantástico.

Antiga vila de Pingyao que continua antiga 


Antiga vila preservada, um dos museus que a cidade oferece

De lá pegamos mais um trem para Xian. Como compramos em cima da hora, nosso ticket era “em pé”, isso mesmo, depois que se esgotam os assentos eles continuam vendendo lugares em pé pelo mesmo preço do sentado. Na China como os chineses. Logo achamos um cantinho e sentamos no chão, na verdade as 3 horas de viagem passaram bem rápidas com a companhia de uma americana que, apesar de ter assento, resolveu sentar no chão conosco e então ficamos conversando durante toda a viagem de manhã e à tarde que passeamos juntos.

Xian é cidade grande e industrial, tem o céu mais pesado que já vi e já senti. A poluição é constante e deixa a cidade cinzenta, parecendo uma neblina. O ar fica denso, dá dor de cabeça, é difícil até de respirar. Isso tira um pouco da graça da cidade, que tem muitas coisas além dos Guerreiros. É lá que tem o bairro muçulmano, sim, chineses muçulmanos vestindo e comendo como tal. Experimentamos o “kebab chinês muçulmano” nas barraquinhas de rua, que em nada lembra os kebabs que comemos no começo da nossa viagem, mas bom igual.

Açougue a ceu aberto no bairro dos muçulmanos

Mas a grande atração são os guerreiros. Chegamos a pensar em não ir para Xian já que vimos os guerreiros quando eles foram para São Paulo, mas como vir para a China e não visita-los? E de fato foi surpreendente, ver todos os detalhes onde até a sola da bota do soldado é desenhada, perceber as diferenças em cada feição, dá até para imaginar o que cada um está pensando. Assim que são desenterrados eles ainda tem cores, mas a tinta se oxida com o tempo e hoje todos são da mesma cor. O governo chinês só vai permitir desenterrar outros guerreiros já identificados quando tiver tecnologia suficiente para preservá-los. Gostaria de ter passado mais tempo admirando-os mas a multidão de turistas, sempre eles, me fez lembrar que não estava sozinha.

Galpão 1, o maior de todos


Chegamos em Chengdu, no meio da China, de avião. Dessa vez não daria para encarar 16 horas “em pé” no trem, único bilhete disponível. Cidade grande, tão poluída quanto Beijing, mas ainda dava para ver o azul do céu. A cidade em si não tem grandes atrativos, mas é ponto de partida para ver os pandas e o grande buda de Leshan.

Eu, que nunca vou a zoológicos, aquários e similares, estava em uma reserva de pandas. Vimos uns 20, entre adultos e um recém nascido que mais parecia um ratinho. Vimos também alguns pandas vermelho, mais parecido com um guaxinim. Ok, ok, são bonitinhos, me lembrou aquele desenho animado dos pandas lutando kung fu.

E então fomos ver o grande buda, realmente grande, com 71 metros de altura, feito de pedra no meio da encosta. Foi um dos imperadores que pediu para construí-lo com o intuito de trazer paz ao lugar que sofria de desmoronamentos. O buda terminou de ser construído 90 anos após a morte do imperador e de fato trouxe paz, provavelmente pela própria alteração de relevo para a construção do buda. Começamos vendo-o pela cabeça e fomos descendo a encosta, tendo diferentes visões, até chegar à base. Impressionante! Valeu ter vindo para o meio do país, uma daquelas sensações que o coração bate mais forte e o ar vai embora.

O grande Buda

Nós 2 no pé do Buda

Na nossa vibe de querer ser como os chineses, estamos tentando comer o que eles comem, o que nem sempre dá certo. No interior, as opções são mais limitadas e quanto mais interior, mais apimentada a comida se torna. Sempre pensamos, “não, não pode ser tão apimentado assim”, e sempre nos damos mal. Aqui a lógica também não funciona. Um pão chinês, daqueles redondo e branco, com carinha de porco tem recheio de... doce de feijão preto. E o que a carinha de porco estava fazendo lá? Enfim, continuamos nos divertindo com nossas descobertas, mas principalmente com os chineses.

Região de Yangshuo e Hong Kong

Chegamos em Guilin de avião, dessa vez nem cogitamos ir de trem já que seriam 25 horas de trilho. De lá fomos de van local para uma vilazinha chamada Ping’an para ver os terraços de arroz. O guia dava orientações muito simples, pegue a van, durma uma noite na vila e tenha uma das melhores visões da China. O que não esperávamos é que quase chegando na vila, tivesse um desmoronamento de terra que impedia a passagem de veículos pela estrada. Entendemos que o serviço da van estava terminado e dali pra frente teríamos que nos virar. Com nossas mochilas caminhamos por uns 10 minutos entre as montanhas e chegamos do outro lado da estrada com um monte de chinês oferecendo transporte daquele trecho em diante. Sempre encontramos anjos pelo caminho, e dessa vez foi uma jovem chinesa que estava com um canadense que vieram na mesma van que a nossa. Foi ela que entrou no meio dos motoristas e negociou o preço “à la chinesa”, falando que estava muito caro, deixando os caras falando sozinho... no final fechamos outra van para nós 4, sendo que eu e o Lucio fomos entregues primeiro, na vila de Ping’an, e o casal seguiu com a van para uma vila vizinha.

Vilazinha mesmo, casas de madeira, um riozinho que passa no meio de toda a vila, galinhas espalhadas, pessoas muito simples. E foi nessa simplicidade que caminhamos pelos arrozais e tivemos uma das melhores paisagens do país. Nessa época a paisagem é verde, o arroz está quase pronto para a colheita, distribuído em diferentes níveis montanha acima e abaixo até onde a vista alcança. Pela primeira vez não tinha multidão, pudemos contemplar a vista lá de cima no nosso tempo, do nosso jeito.

Vila de Ping'an

Nós 2 no Terraço de Arroz

Dragon Rice Terrace

No dia seguinte, fizemos o caminho de volta. Negociamos via mímica com a primeira van que nos deixou no ponto do desmoronamento. Chegando lá, não tinha a segunda van como imaginávamos e lá fomos nós negociar com desenho, mimica e muita imaginação alguma forma de voltar para a civilização. Quando já estávamos no ponto de “ok, vamos lá, não sabemos exatamente onde vamos parar, mas com certeza estaremos mais perto da cidade”, o casal do dia anterior apareceu novamente. A jovem chinesa fez as articulações necessárias e conseguiu 2 lugares na mesma van que eles, que ia direto para a cidade. E no final, deu uma confusão porque acabamos ocupando lugares de outras duas pessoas e quem acabou mudando de van foi o próprio casal que nos ajudou. Anjos são assim, vem e vão, e nos deixam com uma sensação plena de gratidão.

Seguimos para Yangshuo, uma cidade bem turística conhecida pelas formações rochosas em volta do Rio Lee formando paisagens naturais deslumbrantes. O passeio top foi um dia que alugamos uma bike, compramos nosso lanche de bolinhos chineses a 1 yuan cada (0,16 dolares)  e rodamos uns 50 Km pelos campos, passando por plantações, vilas de camponeses, montanhas e rios. No outro dia fizemos também um passeio de barco no Rio Lee que foi um colírio para nossos olhos. Sem dúvida a região mais bonita da China.

Passeio de bike: plantações

Passeio de bike: arrozal

Passeio de bike: bamboo boat no Rio Lee

Lucio pedindo informação para a molecada
Passeio de bamboo boat

A última cidade foi Hong Kong e então teríamos a última chance de fazer uma viagem noturna de trem, programa obrigatório para todo mochileiro. Mas de ônibus seria mais rápido e barato e a propaganda era que seria tão confortável quanto a cama do trem. Lá fomos nós no ônibus dormitório, ou seja, ao invés de cadeiras, temos camas. Nossos lugares eram no fundo, onde dividimos o espaço com outras 3 pessoas, um do ladinho do outro, com direito a cobertor e travesseiro. Passado o espanto inicial de “é esse o meu espaço?”, nos ajeitamos e dormimos como crianças.

Nosso onibus dormitorio

Hong Kong é a cidade mais cosmopolita que passamos nessa volta ao mundo. Super ocidentalizada, é cidade de negócios. Nenhuma dificuldade de comunicação, sem buzinas, sem tumultos, sem multidão. Subimos no ponto mais alto da ilha para ter a visão da cidade e o que vimos foram inúmeros arranhas céus ultra modernos. La embaixo, engravatados de diversas nacionalidades, homens e mulheres, naquele corre corre de vida urbana.

Nós 2 no Victoria Peak
Mam Mo Temple, com incensos no teto

No outro dia fomos conhecer o maior buda sentado em bronze a céu aberto, em Lantau, ilha vizinha. Pegamos o maior teleférico em extensão da Ásia fazendo um passeio 6 km em 25 minutos até o buda. Foi fantástico. Sempre fico encantada quando vejo budas, eles mexem comigo de alguma maneira, parecem que estão sempre sorrindo pra mim e me dão uma sensação de paz muito boa.

O Buda me abençoando

Lucio com seu "guarda sol", como os chineses

Nosso plano inicial era passar pelo menos 40 dias na China. Refizemos nosso roteiro 2 vezes, primeiro porque conseguimos visto de apenas 30 dias e depois porque ficamos “presos” em Beijing esperando o visto indiano. 1 mês foi pouco tempo para conhecer esse país de superlativos, onde tudo é grande e muito. As distâncias são enormes, as construções gigantescas, os chineses infinitos, a comida farta. Mas foi suficiente para experimentarmos um pouco de cada coisa, cidade urbana, hutong, vilazinhas, montanhas, caos no transito, paisagens naturais, budas e templos.

De maneira geral, as atrações não chegaram a me tocar, pensei sobre isso, e acho que a multidão acabou atrapalhando a questão do contemplar e do sentir. O esquema era entrar na fila, muito empurra empurra, ver, tirar foto e sair da bagunça o mais rápido possível. Assim é a China. Por outro lado, que graça teria ela sem os chineses? Chineses que tiveram paciência de tentar nos entender, que negociaram conosco via calculadora na mão, que disputaram de igual para igual quem entrava no ônibus primeiro, que quiseram tirar foto com o Lucio, que nos ajudaram nos momentos de pânico, das chinesas que nos fizeram correr atrás delas na estação de ônibus para não perder o ônibus para Yangshuo, dos jovens que mesmo com pouco inglês quiseram conversar conosco (na verdade com o Lucio, já que eu era considerada local).

De novo, me pego escrevendo que o que faz um país ser especial não são as paisagens e as atrações turísticas, e sim as pessoas, com suas crenças, seus hábitos e costumes, independentes de quais sejam. É o todo que faz sentido para o povo, e o povo que dá sentido ao país, que molda o jeito de ser e as nuances de cada lugar, tornando-os únicos. Parto feliz, me considerando quase uma chinesa. Levo daqui a espontaneidade, a alegria e o sorriso fácil de toda hora. Xie xie.