Estamos em um ano sabático para conhecer o mundo e a nós mesmos. Para isso manteremos nossos olhos, mentes e corações atentos e abertos por onde estivermos. Toda semana faremos um relato do que passou e por onde passamos. Como tudo na vida tem dois lados, serão duas visões sobre os mesmos momentos.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Um descanso no paraíso Koh Tao, Thailandia

Um restinho do Nepal, o sorriso nepalês

Gostei do Nepal logo de cara. Chegamos em Kathmandu e fomos direto para Thamel, o bairro arrumadinho onde todos os trekkers se hospedam antes e depois de suas caminhadas. Uma infinidade de lojas de equipamentos esportivos, restaurantes para todos os gostos e aquela poluição visual que só a Ásia sabe fazer. Nem me importei com a pobreza, as ruas sem calçadas, as buzinas e o transito infernal, afinal estava vindo da Índia. O que realmente me chamou a atenção foi o encanto do povo nepalês, pessoas simples e sempre com um sorriso no rosto. Li no guia para nunca aceitar o primeiro preço, que sempre precisava negociar o valor, mas dava até dó de negociar com eles, eles sempre baixavam o preço, e sempre com um sorriso nos agradeciam. Pudemos ter bastante contato com as pessoas devido ao nosso trekking e ouvimos muitas histórias do Shree, dono da agencia que contratamos, e do Jwala, nosso guia.

Eles sabem da condição de seu país, mas são extremamente orgulhosos do que ele pode oferecer. Ainda é uma sociedade que valoriza as relações e principalmente a família. Tem vários festivais dedicados à família, só no período que estivemos lá presenciamos um que é o principal e dura 15 dias, tempo para que todos possam voltar para suas casas e pedir a benção para seus pais, e outro dedicado aos irmãos, de sangue ou não, para fortalecer a união entre eles.

Conhecemos os principais pontos turísticos de Kathmandu. Swayamblunath Temple (Templo dos Macacos), Boudhanath Stupa, Durbar Square de Kathmandu e de Bhaktapur. Lugares que traduzem a religiosidade desse povo, 80% declarado hindu, mas onde o budismo convive em uma harmonia perfeita, fazendo parte dos rituais do dia a dia.


Boudhanath Stupa

Durbar Square de Bhaktapur

Durbar Square de Kathmandu

Templo dos Macacos

Thamel

Sempre sofro ao me despedir de um país e com o Nepal não foi diferente. Poderia ter ficado dias e dias com a rotina de simplesmente andar por ali, almoçar comidinha local, passar numa bakery e comer um pedaço de bolo, naquela preguiça sem fim. Até passei como local, já que uma das 60 etnias do país puxa os traços dos japoneses. Manish, nosso porter, era dessa etnia. Mas chegou a hora de seguir adiante, de outra grande mudança.

Aqui terminamos nosso grande bloco Ásia Central que durou 3,5 meses e incluiu Japão, Coreia do Sul, China, Índia e Nepal. A parte mais densa da viagem, com muitas histórias e culturas para conhecer. Foram dias de andanças e muita pesquisa para poder absorver o melhor de cada lugar. Um mundo novo e diferente, que nos acolheu tão bem e me fez sentir tão bem. Outro dia estava conversando com o Lucio tentando elencar nossos melhores isso ou aquilo e chegamos à conclusão de que não dá, todos os lugares em que passamos é o melhor na sua essência, cada um trazendo sua própria história e sensações. Completamos com isso nossos 6 meses de sabático, já percorremos metade do nosso caminho. O blog tem nos ajudado a registrar tantas emoções que encontramos por aí para não nos esquecermos no meio de tantas novidades. A saudade já é uma constante, vem e vai, e vou aprendendo a lidar com ela. Ainda temos um mundo para descobrir e sentir, mais paisagens deslumbrantes, comidas deliciosas, histórias e culturas, pessoas e sorrisos para nos encantar e emoções para viver. E disso é feita nossa rotina de viajante, de descobertas, surpresas e sensações.

Nosso descanso no paraíso

Iniciamos nossa terceira parte da viagem, o Sudeste Asiático, com um belo descanso, nossa segunda parada estratégica, aquela que serve para descansar o corpo e o coração, e tudo que precisamos fazer é nos espreguiçar demoradamente, no caso, no paraíso chamado Koh Tao, uma ilha ao sul da Thailandia. O único problema é que eu achava que no paraíso não tivesse tempo ruim e nem nos preocupamos em checar a previsão do tempo. O que acontece é que aqui também fica nublado e chove, e entre um dia de sol e outro de chuva, alternamos entre praia e trabalho (pesquisa intensa para os próximos países).

Acho essa vida de mochileira um barato, outro dia estávamos passando frio nas montanhas do Himalaia e hoje estamos morrendo de calor nas praias da Thailandia. Cenários completamente diferentes, mas que preenchem a alma igual. Falando assim parece poesia, mas enfrentamos em um período de 24 horas um taxi, um avião, um trem, outro taxi compartilhado com outra mochileira para baratear o custo, um ônibus noturno e um barco, para chegar no nosso destino. Nosso lado B...

Nossa rotina tem sido acordar sem pressa, sair à procura de uma praia pra chamar de nossa, entrar no mar que mais parece uma piscina aquecida, almoçar comidinha local, voltar pra areia e dar uma cochilada, voltar para o hotel, tomar banho e sair pra jantar. Ah, vidão...





Hoje fizemos um passeio de snorkeling, foram 5 paradas para ver vários tipos de peixes coloridos e no final a ilha mais fotogênica da região, Nang Yuan. Suspiros...



Comer é uma delicia! Amo essa parte da viagem! Cometemos só um pecado western logo no primeiro dia. Após 45 dias sem carne de vaca (Índia e Nepal) comi um file bem mal passado, do jeito que eu gosto. O Lucio foi de hambúrguer com fritas. Depois mergulhamos de cabeça na comida tailandesa que desafia nosso paladar a cada refeição. Salgado, doce, apimentado, cheiroso, muito cheiroso. Por 3 dolares nos esbaldamos com um prato muito bem feito nos restaurantes. Por 2 dolares nos esbaldamos igual nas barraquinhas de rua. Por outros 2 dolares não poderia faltar a cerveja local, mesmo preço no supermercado ou nos restaurantes. Férias é assim, comer, beber, viver.

Frango com green curry e leite de coco

Frutos do mar e legumes

Vamos ficar nessa preguiça por uns 20 dias, mudando apenas de ilha. Afinal, cansa ver a mesma paisagem paradisíaca por muito tempo...

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Trekking no Nepal

De Katmandu para Namche Baazar (de 1.400m para 3.440m)

Chegamos na terça e no final do dia fomos conhecer a agencia que contratamos (Base Camp Adventure), o dono e fechar os últimos detalhes do nosso trekking. Foi muito bom e o Shree nos pareceu um pessoa muito comprometida, fácil de conversar e acessível. É um jovem empresário que antes já foi carregador, guia e agora é agente de turismo. Conhece bem as montanhas, nos deu várias dicas e nos passou nosso roteiro completo. E a primeira dica foi tentar antecipar a viagem para Lukla para sexta-feira. O melhor era chegar lá o mais rápido possível, pois essa viagem (30 minutos de avião) é o grande problema para começar o trekking pois muitos voos são cancelados. Nos outros dias da semana compramos algumas coisas para usarmos na caminhada, principalmente coisas para nos manter aquecidos e secos. Na sexta acordamos cedo fomos pegar os sacos de dormir e um jaquetão para o frio que a empresa nos providenciou, voltamos para o hotel e ficamos aguardando a hora de ir para o aeroporto. Mas antes das 10 horas a empresa nos ligou e disse que não seria possível viajar pois o aeroporto de Lukla estava fechado. Fomos então passear um pouco e conhecer alguns lugares em Katmandu. Conhecemos o bairro de Thame e fomos até o templo dos macacos. No sábado acordamos cedo e fomos para o aeroporto, mas nesse dia apenas o primeiro voou partiu para Lukla. Ficamos no aeroporto até as 13 horas esperando o cancelamento oficial de todos os outros voos.

Lukla é um vilarejo no meio das montanhas a 2.860 metros do nível do mar e ponto de partida para todas as expedições e trekking na região do Everest. As únicas opções para chegar aqui são de avião ou helicóptero. Ou caminhando por 7 dias. O primeiro sofre constantes cancelamentos por causa do tempo e o segundo é muito caro. A terceira opção nem pensar. E Lukla tem um dos aeroportos mais extremos do mundo (pra não dizer perigoso): a pista é curta, com inclinação para ajudar o avião a parar na chegada e a pegar velocidade na partida, com um penhasco na cabeceira da pista e um paredão no final dela e com operação apenas visual. E esse é o grande problema de tantos atrasos. Se houver uma só nuvem no caminho do pouso eles não voam. E quem toma a decisão final, quem tem o poder de fazer ou cancelar os voos são os pilotos. O governo aprovou isso e as empresas não podem fazer pressão. Isso nos deixa mais tranquilos em relação a segurança.

No domingo seguimos novamente para nossa rotina: aeroporto, esperar e voltar para o hotel. Na segunda-feira seguimos novamente para o aeroporto e os voos estavam partindo e ficamos esperançosos. O cara da empresa que estava nos acompanhando nos disse que nosso voo tinha sido definido. Depois disso seguimos para o check-in. Maravilha. Mas não tanto. Pegamos nossos tickets e fomos para o salão de embarque, trinta minutos depois entramos no ônibus para ir até o avião e quando chegamos no avião o comissário nos pediu para esperar. Nesse meio tempo, de 5 minutos, começou a chover. Mas pensei, o que importa não é o tempo em Katmandu mas em Lukla, se lá estive ok então ok. Vinte minutos depois ele voltou, pedindo desculpas, e disse que o voo iria atrasar pois o aeroporto de Lukla estava fechado. Voltamos para o salão de embarque e ficamos esperando até as 15:00 quando eles decidiram cancelar o voo. Pegamos nossa mochila e fomos para o estacionamento aguardar o Shree, o dono da empresa. Durante todos esses dias no aeroporto, um guia da empresa estava conosco. Ele não era o nosso guia mas se as coisas continuassem atrasando, poderia ser. Na verdade o casal que ele ia guiar já estava na montanha. E o nosso guia também. Enquanto esperávamos no estacionamento, o cara da empresa do avião passou por nós e disse que o aeroporto tinha sido reaberto e que poderíamos voar. Voltamos correndo para dentro do aeroporto, fizemos o check-in novamente e embarcamos no avião. Um pequeno avião para 20 pessoas com uma fila de cadeiras de cada lado e cabine do piloto aberta. Deu para acompanhar todo o voo. A tela do radar do piloto era do tamanho do meu GPS. Partimos para um voo de 25 a 30 minutos que durou 50. O piloto fez várias voltas para desviar de grandes nuvens no caminho e quando chegamos no vale ele aprumou o avião mas depois saiu para a esquerda. Quando olhei para ver o que estava acontecendo, vi uma pequena nuvem exatamente na cabeceira da pista. Era tão pequena que mais parecia uma bola de algodão. Mas aqui, sem visão total da pista, nada feito. O piloto então deu uma volta no vale, tentou novamente e nada. A nuvem continuava lá. Ele então deu outra volta no vale agora um pouco mais longa. Fizemos um passeio grátis pelas montanhas, passando próximo dos paredões, subindo, descendo e fazendo curvas. Parecia que estava num filme, a montanha estava logo ao lado, pra mim não mais de 20 metros mas deveria ser um 200. Mas eu só ficava pensando: “será que vamos voltar para Katmandu nessa altura do campeonato?”. Depois de voar pelas montanhas ele voltou para o aeroporto e a nuvem tinha ido embora. O pouso mais pareceu que ele tinha caído na pista. E como tudo tem que ser muito rápido pois ele tem que voltar para Katmandu, o desembarque e embarque não durou mais que 5 minutos. Sem tempo nem para fotos, pegamos nossa bolsa e encontramos com nosso guia e o carregador. Nisso já eram 5 da tarde e pelo programa teríamos que caminhar mais 3 horas até a vila onde iríamos dormir. Como não tínhamos almoçado ainda paramos em Lukla para tomar uma sopa e para conversar e conhecer melhor com o nosso guia, o Jwala e o nosso carregador, o Manish. Os dois nos ajudaram muito nessa aventura. Não faria o trekking sem um guia e não conseguiria sem um carregador. Saímos de lá já eram mais de 5:30, então decidimos andar até que tudo ficasse escuro e no outro dia tirar o atraso. Andamos mais 40 minutos e paramos em uma Tea House, como eles chamam as pousadas aqui. Trocamos de roupa, jantamos e fomos dormir. O outro dia seria longo.

Caminho até Namche
Acordamos cedo, tomamos café e seguimos para caminhar e tirar o atraso do dia anterior até a cidade de Namche Baazar. Caminhamos por mais de 7 horas, saindo de uma altitude de 2.650m até 3.440m. Mas esse não foi o problema, o problema é que durante o caminho você sobe e desce várias e várias vezes. E quando seu destino final é mais alto que o seu local atual, qualquer decida é um tormento. E o Jwala nos informou que esse é um caminho plano nepalês. Se não houver várias subidas e descidas de 100, 200 metros de desnível muito provavelmente você não está no Nepal. Cruzamos várias vezes o rio no fundo do vale por pontes suspensas por cabos de aço e com piso de metal vazado que dava para ver o rio abaixo. E a última tinha uma altura de mais ou menos uns 300 metros. Não parei nem para bater foto. Uma japonesinha que vinha atrás da gente vinha agarrada no guia sem conseguir olhar para lado nenhum. Não, não era a Raquel, era outra japonesinha, uma de verdade. E depois da ponte, começou a parte mais difícil do trajeto, subida até Namche, talvez uns 400 metros de desnível. Foi duro, muito duro e foi apenas o segundo dia.


O Jwala fazendo graça em uma das pontes

A ponte mais alta do vale

A ponte mais alta do vale vista de baixo
Chegue em Namche muito cansado e com bastante frio, já era fim de tarde e estava chuviscando. As Tea Houses são pousadas bem simples, sem calefação nos quartos e muitas nem na sala de jantar (a nossa não tinha) e todas com tabela de preço adicional para “artigos de luxo” como: internet, energia para recarregar baterias e banho quente. A temperatura deveria estar abaixo de 10º com certeza. Trocamos de roupa e o Jwala nos disse que não tinha banho quente pois o aquecedor era solar e não tinha feito sol naquele dia. Ok, então tá então. Tomamos banho de gato, com toalhinha umedecida e fomos jantar. Além de andar sempre devagar, cada um no seu ritmo, sem pressa, o Jwala nos alertou ainda no primeiro dia, que as coisas mais importantes para fazer o trekking sem problemas em relação ao mal da altitude são: beber bem (água), comer bem e dormir bem. E eu respondi: “então tá fácil”. Até agora estamos sem problemas. No dia seguinte era dia de aclimatação, ou seja, não vamos a lugar nenhum. No roteiro diz que é um dia de descanso mas não é bem assim. Para aclimatar, o melhor a fazer é subir ainda mais e depois voltar para dormir em uma altitude menor. Então no dia do descanso subimos até o topo da cidade, uns 400 metros de desnível, visitamos um hotel luxuoso que tem por lá e voltamos para almoçar. Durante a tarde fomos conhecer o centrinho da vila e tirar algumas fotos. As crianças aqui são bem desinibidas e posam para tirarmos fotos. Tinha um que não parava quieto correndo para todo lado enquanto a mãe lavava roupa no riacho no meio da vila. Era tão pequeno que acho que não batia no meu joelho, moreninho, com o nariz escorrendo, cabelo lambido, ficou no meu caminho não me deixando passar. Fiz uma graça com ele mas apareceram várias cabras e ele ficou mais interessado nelas, tentando pastora-las. Não tinha nenhuma cabra menor que ele. Uma graça. Depois disso comemos um bolo de chocolate e voltamos para o hotel para tomar nosso primeiro banho desde que saímos de Katmandu, jantar e dormir.


Dia de descanso. Subindo a montanha com Namche bem abaixo
O menino e as cabras

De Namche a Lobuche (de 3.440 a 4.910 metros)

Saímos cedo de Namche com destino a Tengboche (3.860m) que era quase na mesma altura que subimos no dia anterior para fazer a aclimatação. Mas o caminho foi bem mais difícil. Pra chegar lá temos que descer 350 metros até o rio para depois subir 750 metros, além de algumas partes “planas”. Nesse dia criei o meu mantra para ritmar os passos nas horas de caminhada: “1, 2, 1, 2”. Poderia ter aproveitado o momento para ter um mantra mais poderoso como: “eu, posso, eu, posso”, ou “eu, consigo, eu, consigo”. Ou até mesmo um mais egocêntrico como: “sou, foda, sou, foda” ou “lin, do, lin, do”. Mas o “1, 2, 1, 2” resolveu meu problema e quando não dava para ser mais rápido, ele ficava: “1..., 2..., 1..., 2...”. Chegamos em Tengbuche às 14:30, almoçamos e depois fomos conhecer o monastério que é a única atração da vila. É um monastério bem grande e naquele momento era hora dos monges fazerem suas preces. Senti muita tranquilidade naquele ambiente e uma sensação muito boa. À noite fez muito frio mas essa Tea House tinha aquecedor no salão de jantar. No dia seguinte seguimos para a vila de Dingboche (4.410 metros) onde ficamos por duas noite para aclimatização e mais um dia de “descanso”. Desde Namche a Raquel vinha sentindo os efeitos da altitude: dor de cabeça, náusea, perda de apetite. Nada muito generalizado: a dor de cabeça por exemplo passava quando ela tomava remédio, o que é um bom sinal de que não é o mal da altitude mas apenas efeitos colaterais. Mas como ela mesma disse: “tudo parece normal até que acontece com a gente”. O Jwala, nosso guia, sugeriu tomar sopa de alho para amenizar os efeitos ao invés de tomar qualquer remédio. Nessa noite até eu tomei uma sopa com noodles e muito, mas muito alho. E foi aqui que vimos que são muitos os casos de resgate de helicóptero por causa do mal da altitude. Nessa vila pelo menos 3 pessoas foram resgatadas para Katmandu naquele dia. Nada grave, é que o melhor e único remédio é descer para um lugar mais baixo o mais rápido possível. No dia de “descanso” subimos mais 400 metros e voltamos. Depois de descansar por um dia, no outro seguimos para Lobuche (4.910 metros). Foi mais um dia de muito esforço, muito sobe e desce e mais de 6 horas de caminhada. Eu estava me sentindo muito bem, seguindo as dicas do Jwala: beber, comer e dormir bem. E para não apressar a Raquel segui o caminho todo sempre no ritmo dela. Foram quatro dias bem puxados.


A caminho de Tengbuche
Mosteiro
As Montanhas
O Mosteiro
A caminho de Dengbuche
Maravilha
Dengebuche, de um lado...
... e do outro
Dia de descanso
Só curtindo

De Lobuche para Gorakshep e o Acampamento Base do Everest (de 4.910 para 5.140 e 5.364 metros)

Esse seria o dia mais difícil até agora: 8 horas de caminhada a mais de 5.000 metros de altura. De Lobuche caminhamos por 2,5 horas até Gorakshep. Saímos cedo e chegamos lá as 10:00. A Raquel já mostrava que estava quase no limite. Tomamos uma sopa e eu disse que poderíamos ficar ali, descansar e no outro dia iriamos para o Acampamento Base. Mas ela decidiu seguir para o Acampamento Base no mesmo dia. O caminho não é fácil: você vai serpenteando, subindo e descendo pedras e mais pedras por 2,5 horas somente para ir. Depois, mais 2,5 para voltar. Sabia que não seria moleza ainda mais para ela (até aquele momento eu não sabia que também estava quase no limite).

A caminho de Lonbuche
Um descanso para o Manish
Portal do Everest. Local das homenagem aos mortos na montanha.
Descansando
O Acampamento Base é um amontoado de pedras cheio de bandeirinhas coloridas no meio do glacial Khumbu que é coberto de outras pedras monstruosas. A grandiosidade do entorno impressiona: é o final do vale e início de algumas das principais e mais altas montanhas do mundo. É dali que os super-humanos malucos começam a escalada do Everest. Chegamos lá e depois de baixada a adrenalina, tirada todas as fotos, colocadas as bandeirinhas e olhado o entorno, me emocionei muito junto com a Raquel. Foi sem dúvida o lugar que mais me emocionou nessa e em outras viagens que fiz. Talvez tenha sido pelo sonho realizado, talvez pela espera de 3 anos, talvez pelo esforço de 8 dias de caminhada dura ou a combinação de tudo isso junto com a noção de nós parecíamos formiguinhas naquela imensidão toda. Mas não foi nada disso, quer dizer, nada disso foi o principal.


O Acampamento Base (no meio da foto, de baixo para cima, antes do branco do glacial). Ampliando dá pra ver.
O Acampamento (de perto)
Quando ainda estávamos no caminho, faltavam uns 30 minutos e já podíamos ver o acampamento, paramos para descansar um pouco e beber água e eu perguntei a Raquel se estava tudo bem. Ela disse que estava muito cansada e que não estava vendo graça nenhuma naquilo tudo. Sugeri então que voltássemos pois ainda tinha uma grande descida e outra subida e ainda tínhamos que voltar. Se ela tivesse decidido voltar, voltaria numa boa sem nenhum remorso por chegar tão perto e não ter ido realmente. Mas ela decidiu seguir. E estar lá com ela depois de tudo e abraça-la foi a faísca para tanta emoção, o resto foi combustível. Chorei lá, voltei chorando para Gorakshep e estou chorando agora enquanto escrevo. O Acampamento Base do Everest é o meu Everest, é o topo do meu mundo.

A Emoção
Ainda naquela noite decidimos não seguir para a região de Gokyo conforme planejado e iriamos voltar para Lukla pelo mesmo caminho. Não tínhamos forças para continuar pelo caminho mais longo nem razões suficientes para nos encorajar.

De Gorakshep para Katmandu (de 5.120 para 1.400 metros)

Uma das primeira coisa que se aprende quando se faz trekking é que chegar no seu objetivo é somente metade do caminho. A volta normalmente é do mesmo tamanho da ida e não é por que é morro abaixo que ela é tão mais fácil.

Depois de uma boa noite de sono apesar do frio de quase 0º dentro do quarto, acordei no outro dia e me dei conta do quanto cansado e exausto eu estava. Tinha dor de cabeça, náusea e perda de apetite. Exatamente no dia de começar a descer comecei a sentir os sintomas que a Raquel vinha sentido em toda a subida. Mas ainda tinha mais um coisa a fazer: subir no Kalapatar, uma montanha ao lado da vila de onde se tem a melhor vista do acampamento base e do Everest. O Kalapatar fica a 5.550 metros do nível do mar e 200 metros acima do acampamento base. Mas o dia amanheceu cheio de nuvens e não fazia sentido subir para não ver nada. O Kalapatar é como um prédio bem altar no meio de uma bela cidade: ele mesmo não é uma atração, a atração é a cidade e nós já tínhamos ido na cidade, andado por ela. Isso bastava.



Começamos a descer e depois de duas horas chegamos em Lobuche (4.910m) e eu não aguentava mais dar um só passo. A Raquel estava voltando a ficar melhor, o apetite voltava e o meu ia embora. Quase não comi no almoço e seguimos morro abaixo. Depois de quase 5 horas de caminhada chegamos a Pheriche (4.240m). Como descemos quase 1.000 metros a promessa era de melhora de todos os sintomas da altitude. E foi isso mesmo. Dormi quase 10 horas ininterruptas. Como tínhamos desistido de fazer o caminho mais longo para voltar, tínhamos tempo para fazer uma descida mais tranquila do que as outras pessoas que normalmente voltam em 3 dias. Nós voltamos em 5 dias. De Pheriche fomos para Tengboche (3.860m), a vila do monastério. Mas uma vez fui acompanhar as preces do monges e novamente me senti muito bem. É um ambiente de muita paz e tranquilidade. Depois voltamos para Namche (3.440m), onde realizamos nosso desejo de comer doce (comemos torta de maça e bolo de chocolate) e de tomar banho de novo. O último banho de verdade tinha sido exatamente aqui durante a subida há 8 dias atrás. Foram 8 dias tomando somente banho de gato. Bati meu recorde, para sempre. No outro dia descemos para Padking e depois Lukla onde ficamos aguardando o voo para Katmandu. Foram três dias praticamente descansando, andando em um ritmo bem lento sem presa para nada. Acho que batemos o recorde de lentidão para descer. Mas foi bom aproveitar um pouco mais da paisagem e da vida local que segue em um ritmo próprio e único. No Domingo voamos para Katmandu bem cedo e fiquei do avião olhando as montanhas, agora de longe, e tentando reviver, gravar, para nunca mais esquecer a experiência. Como se isso fosse possível.

Namaste.
Valeu.

O meu topo do mundo

Essa é uma história para quem acredita em sonhos...

Vir para o Nepal e fazer um trekking até o campo base do Everest a 5.350 metros de altitude é um sonho que começou há 3 anos. Uma mistura de fazer algo diferente, ver paisagens surpreendentes e me desafiar foi a combinação perfeita para que essa viagem ocupasse o primeiro lugar da nossa wish list.

Desde então começamos a entender melhor como funciona esse mundo de trekking. Nos equipamos com botas e roupas especiais e saímos por aí fazendo alguns testes. Nosso primeiro trekking foi na Chapada Diamantina, lugar único no Brasil, para não dizer no mundo, mas sem nenhum efeito do frio e da altitude. Depois fomos para a Patagonia Argentina, outro lugar memorável, testamos o frio, mas ainda sem altitude. E assim fomos nos entendendo com as montanhas e pegando o gosto de caminhar no meio do seu silencio, da sua beleza e do seu poder.

Finalmente chegamos no Nepal, propositadamente no meio do nosso sabático, para garantir as melhores condições climáticas da região, após as monções e antes do inverno. Contratamos uma boa empresa de trekking local com guia e carregador de mala, nos asseguramos que nosso seguro fizesse resgate de helicóptero até 6.000 metros de altitude, tranquilizamos nossas famílias e lá fomos nós... para os 13 dias mais intensos que já vivi.

Foi sem dúvida meu maior desafio físico e mental. Levei meu corpo ao limite antes desconhecido, enfrentando os efeitos da altitude, o frio e o cansaço dia após dia. Nas montanhas não existe segunda, terça ou quarta. Ou dia 1, 2 ou 3. A dimensão de tempo é diferente, cada dia é um dia que deve ser respeitado e sentido em sua plenitude. Passava o dia caminhando e ouvindo o meu corpo. Tentando entender a dor de cabeça, a náusea, a falta de apetite, o formigamento dos pés. Tentando trazer razão quando a emoção já tinha dominado todos os motivos. Trazendo forças onde já não sabia de onde tirar. Sabia que a qualquer momento poderia parar e voltar. Mas eu não queria voltar. Também não queria chegar no limite de ser resgatada. E eu não sabia definir essa linha tênue do que era normal ou não, travando uma batalha mental que me deixou alerta durante todo o percurso.

Contemplar a beleza do lugar, andar pelas pontes suspensas, conversar com o silencio das montanhas, ver a paisagem mudando conforme a altitude vem chegando, sentir o solzinho em meio ao vento gelado, enfim, estar lá, sentindo e vivendo é uma das melhores sensações do mundo. Estava vivendo o meu sonho, mais duro do que imaginava, mais bonito do que imaginava, mais intenso do que imaginava. Era o meu sonho. E a hora era aquela.  

Dia 1: Kathmandu/Lukla a Cheplung: 2.660 metros

Inicialmente programado para iniciar no dia 26/9, começamos no dia 29/9 devido aos cancelamentos dos voos entre Kathmandu e Lukla, onde o tempo precisa estar perfeito para o pouso do avião. Nossa rotina era acordar cedo, ir para o aeroporto e torcer para que os voos estivessem regulares. O aeroporto de Lukla abre e fecha diversas vezes ao dia, então ficávamos esperando até o encerramento oficial do dia, que em geral era no meio da tarde. Voltávamos para o hotel e recomeçávamos no dia seguinte a mesma saga. No último dia, dia em que voamos, chegamos a fazer o check-in, entramos no ônibus que liga o saguão ao avião e então cancelaram o voo. Voltamos para o saguão, mais algumas horas para ver se o tempo melhorava e nada. Desfaz o check-in, recupera a bagagem e quando já estávamos no estacionamento vieram nos chamar dizendo que o voo tinha retornado. “Let’s go” foi a palavra chave pra gente sair correndo, fazer o check-in novamente e entrar no menor avião que já voei. Depois de 30 minutos, às 17h00, estávamos pousando em Lukla, a 2.800 metros de altitude, e conhecendo Jwala e Manish, nosso guia e porter, que seriam nossos anjos pelos dias seguintes.

Embarcando no aviao para Lukla

Como chegamos tarde, caminhamos somente durante 40 minutos, enquanto ainda tinha claridade. Dormimos em uma tea house, nome dado à hospedagem das montanhas e que seria nosso abrigo dos próximos dias. Em geral uma hospedaria simples, com quartos individuais e banheiro coletivo. O único lugar com calefação era o refeitório, onde passávamos a maior parte do tempo nos esquentando. Super simples, mas com tudo que precisamos durante nossa caminhada.

Dias 2 e 3: Namche: 3.440 metros

O segundo dia foi bem puxado, na verdade caminhamos o que deveríamos ter caminhado no dia anterior mais a programação do dia em si. Ainda sem ritmo de caminhada, mas com vontade de chegar lá, fizemos 7 horas entre subidas e descidas. Meu mantra do dia foi “vou ter um banho quente quando chegar, vou ter um banho quente quando chegar....” Não tive! Nem banho quente. Nem banho. Nessa noite já vesti tudo de frio que tinha levado e comecei a ficar preocupada com o frio que ainda estava por vir. À noite tive minha primeira dor de cabeça, que me acompanharia durante todas as noites até iniciarmos o caminho de volta. De manhazinha, fomos ver o nascer do sol e tive a primeira visão do Everest. Ah, é para isso mesmo que estamos aqui. No dia seguinte continuamos em Namche para aclimatar nosso corpo à altitude.

Nós 2 no dia 2, paisagem de muito verde
Primeira vista do Everest, logo de manhazinha, da esquerda para a direita, o 3 "topinho", bem no meio da foto

Dia 4: Tengboche: 3.860 metros

Conforme íamos subindo, a caminhada ia ficando cada vez mais difícil. O ar começava a faltar, o cansaço a aparecer. Depois de uma longa subida chegamos em Tengboche, uma vilazinha simpática onde tem um mosteiro budista bem famoso. Todos os dias às 15h00 tem uma cerimônia para desejar boa sorte aos viajantes. Assistimos à reza e saímos de lá abençoados.

Nossa rotina era acordar às 6h30, tomar café da manhã às 7h00, começar a caminhar às 8h00, parar para almoçar entre 11h00 e 12h00, caminhar mais um pouco e chegar no destino do dia entre 14h00 e 15h00, quando ainda tinha sol para nos aquecer. Chegando na tea house tomávamos banho de baby wiper, colocávamos uma roupa seca e todo o aparato de frio que tínhamos. Aí íamos para a sala de jantar que tinha calefação, jantávamos lá pelas 19h00 e às 20h00 já estávamos dormindo nos nossos sacos de dormir que aguentava até -20 graus. Eu sempre dormia as 4 primeiras horas direto, depois acordava com dor de cabeça e ficava dormindo e acordando meio incomodada.

Quarto da tea house. Em geral sempre tinha uma vista para as montanhas. 

Dias 5 e 6: Dingboche: 4.410 metros

Passamos os 4.000 metros de altitude. A paisagem já é bem diferente. Já não vemos mais arvores, só uma vegetação rasteirinha. As montanhas estão mais perto, mais brancas e mais bonitas. Os animais somem, entram os yaks peludos com o sininho pendurado no pescoço levando e trazendo peso nas costas.

A subida foi muito difícil. Parece que andamos em câmera lenta, tamanho é o esforço de subir. Se em Namche tudo o que eu queria era um banho quente, aqui, tudo que eu queria era chegar, só e somente. Comecei a ter náusea e falta de apetite. A partir dessa noite meu jantar se resumia a uma sopa de alho, bom para combater os efeitos da altitude. Passamos 2 dias na vila para fazer a aclimatação. No segundo dia, subimos a 4.800 e descemos novamente a 4.410. Assim que cheguei me senti exausta e muito enjoada. Não tinha forças para me trocar, não queria comer nada. Deu um desespero e comecei a chorar. Chorei de frustração porque meu corpo não estava reagindo bem. E chorei de medo, porque não sabia como meu corpo reagiria dali pra frente.

Uma das melhores paisagens da trilha, que me deu folego para continuar a dificil caminhada

Dia de aclimatação, subindo o morro, paisagem diferente, sem verde

Isso vale a pena

E mais isso... lindo!!!!

Dia 7: Lobuche: 4.910 metros

A paisagem mudou, começou a ter muitas pedras, o que dificultou mais ainda a locomoção. Muito cansada. Cada passo é um passo. Muito devagar e exigindo muito do corpo. O movimento de resgate de helicóptero é intenso, o que me fazia lembrar de onde estávamos e me deixava bastante preocupada.

Dia 8: Gorakshep: 5.140 metros – Everest Base Camp: 5.364 metros

Foi o dia mais difícil. Saímos às 7h15 e chegamos às 10h00 em Gorakshep. A programação era parar para um almoço rápido e depois seguir por mais 2 horas até o Campo Base e depois voltar em mais 2 horas.

Quando chegamos em Gorakshep não estava mais aguentando. Tinha chegado no limite do meu corpo e desabei. Chorei de cansaço. Chorei porque não aguentava mais. Chorei porque minhas pernas não me obedeciam. Chorei porque me faltava ar. E chorei porque tinha que continuar. Nessa altitude é recomendado que se durma apenas uma noite, depois tem que descer. Se não seguíssemos até o Campo Base naquela hora, não teríamos outra oportunidade.

Depois de mais uma sopa de alho seguimos adiante. O caminho para o Base Camp era todo de pedras soltas, muito difícil de andar. Qualquer pisada errada podia acabar no penhasco logo ao lado. Minha confiança estava muito baixa, andava muito devagar, fizemos em 5 horas o caminho que em geral dura 4. Estava há 4 dias sem me alimentar direito, me sentindo muito fraca e um pouco tonta. O meu mantra virou “fica bem, vai dar tudo certo”.

Fiquei com raiva do meu sonho, eu não o queria mais, ele não fazia mais sentido. E se não era mais meu sonho, eu poderia desistir, certo? Não, errado. Porque aí eu me dei conta que o sonho não era só meu, era do Lucio também. Era o nosso sonho. E eu não poderia desistir, não agora, que estávamos quase lá.

Depois de 2h30 chegamos no Campo Base da mais alta montanha do mundo, a mais de 5.300 metros de altitude. Estávamos no pé do topo do mundo, que pra mim, era o meu topo do mundo, o nosso topo do mundo. A nossa realização, o nosso sonho, a nossa coragem, a nossa determinação, a nossa felicidade. Lá em cima chorei de novo, abraçada com o Lucio. E nessa hora não precisava de palavras, cada um sabia o tamanho do seu sonho.

Caminho para o Base Camp

Colocando as bandeirinhas de boa sorte no nosso topo do mundo


Sonho e felicidade

Depois de voltarmos à tea house tomamos uma decisão importante, que foi voltar ao invés de continuar o trekking por mais alguns dias passando pela região do lago Gokyo. Se continuássemos seriam mais 4 dias a mais de 4.000 metros de altitude e o nosso objetivo, do Base Camp, já havia sido realizado.

Dia 9, 10, 11, 12 e 13: Pheriche (4.240), Tengboche (3.860), Namche (3.440), Phakding (2.610) e Lukla (2.840)

Como tínhamos comprado o pacote de mais dias incluindo o lago Gokyo, pudemos fazer a volta em 5 dias ao invés dos 3 tradicionais. Nossa rotina ficou mais leve, acordando mais tarde, andando no máximos 4 horas por dia, em um ritmo bem tranquilo. A cada dia minha condição física melhorava. Logo no dia 9, perder 1.000 metros de altitude me fez dormir pela primeira vez sem dor de cabeça. Meu apetite voltou, em dobro. Aliás a comida da montanha é muito boa, simples, bem temperada, na medida certa para alimentar a barriga e aquecer a alma. Viemos caminhando devagar, aproveitando os últimos dias nas montanhas e degustando a sensação do sonho realizado.

Chegando em Lukla. Uhuuu! Sonho realizado.

Dal Baht, prato tradicional nepales: arroz, lentinha, verdura, batata e frango

Dia 14: Lukla/Kathmandu: Voltamos no primeiro voo do dia, antes das 7 da manhã. Do avião me despedi das montanhas e dos dias de calmaria e reflexão. Chegando em Kathmandu tomei o melhor banho quente dos últimos tempos. Bebemos cerveja e comemos frango frito e batata frita. Realizados de um sonho, não somente de um, mas de dois sonhos.

Foram 13 dias caminhando uma média de 6 horas por dia. 2 banhos quentes, 1 banho morno. Sem informação do mundo e sem internet em plena eleição presidencial. Do lado da pessoa que mais amo, que me ajudou a tirar a bota nos dias que eu nao tinha mais força e que falou que "tudo bem" no meu quinto dia sem banho. Uma experiência que vou carregar para toda a vida, que me marcou de forma profunda e me trouxe a maior sensação de realização do mundo. Momentos que fazem o sabático valer a pena. Momentos que fazem a vida valer a pena.

Essa é uma história para quem acredita em sonhos. E em felicidade.