Estamos em um ano sabático para conhecer o mundo e a nós mesmos. Para isso manteremos nossos olhos, mentes e corações atentos e abertos por onde estivermos. Toda semana faremos um relato do que passou e por onde passamos. Como tudo na vida tem dois lados, serão duas visões sobre os mesmos momentos.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Vietna de norte a sul

Começamos nossa andança pelo Vietnã em Hanoi, a cidade das motos. Aqui duas regras para poder se entender com a cidade: primeira, a calçada é das motos e segunda, elas nunca vão parar para você atravessar a rua, mesmo quando o sinal está fechado para elas. Para se dar bem você precisa andar no cantinho da rua (lembre-se, a calçada é das motos) e para atravessa a rua é só ir andando devagarinho, nunca parar ou voltar, e as motos vao milagrosamente desviando do seu caminho. Entendido essa parte vamos conhecer a cidade.




É uma cidade grande que guarda seu jeito de ser, apesar da correria do dia a dia parece que sua essência está por todos os lados. Acho que o melhor programa é sentar em um dos restaurantes com mesinhas na calçada (e aqui mesinha é mesinha mesmo, de criança, assim como as cadeirinhas), tomar uma cerveja de 0,25 dólares e se divertir com os locais. Não importa o dia da semana, não importa a idade, o sexo nem a classe social, no final do dia todos vao para as mesinhas para brindar a vida a cada gole da cerveja.


Andamos pela cidade sem compromisso, absorvendo aquele misto de cidade moderna com habitos antigos, as típicas senhoras carregando suas mercadorias no ombro, a cultura do café e do cha em cada esquina (que troca pela cerveja à noite), o noodle soup na rua a toda hora. E as motos, claro. Entre uma andança e outro visitamos o Mausoleo de Ho Chi Minh, o Templo da Literatura e assistimos a uma peça de marionetes na água que conta histórias do folclore vietnamita, bem interessante.





Em Hanoi compramos um tour para conhecer as ilhas de Halong Bay, um passeio de barco de 2 dias, 1 noite. Aqui estamos no inverno com temperaturas entre 10 e 15 graus, garoa e neblina. Não foi o melhor tempo, no começo do passeio fiquei bem chateada, achando que era melhor nem ter ido para não criar uma imagem negativa do lugar que é uma das 7 maravilhas naturais do mundo (junto com a Amazonia e as cataratas de Foz do Iguaçu). Mas uma vez lá, quando eu finalmente parei para olhar onde estava, me dei conta que estava em mais um lugar único no mundo, no meio do mar, cercada por ilhas de rochas calcárias que inacreditavelmente foram “colocadas” lá. Gostei muito da lenda que diz que na guerra contra os chineses, os deuses enviaram uma família de dragões para ajudar a defender a terra e eles começaram a cuspir joias e jade, que depois se transformaram nessas ilhas, formando uma parede contra os invasores. O povo manteve as suas terras seguras e os dragões decidiram ficar por ali, dando nome à baía que quer dizer “a baía onde desceu o dragão”.





O Vietnã tem um esquema de open bus bem interessante. A gente comprou um passe que vai de Hanoi a Ho Chi Min, parando em 3 cidades. Ele é válido por 6 meses e só precisa ligar um dia antes para reservar o seu lugar. O ônibus é daqueles que pegamos em Hong Kong, com camas ao invés de poltronas. Para entrar no ônibus precisa tirar o sapato e o cheiro de chulé só é compensado pelo preço de 40 dólares que pagamos por cada passe.

De open bus foram 15 horas até Hue, antiga capital imperial. Andamos pela Citadela, antiga sede do Imperio, imaginando como era essa mini “Cidade Proibida” através de suas ruínas que ainda lutam para serem reconstruídas. 



De volta ao open bus foram mais 5 horas até Hoi An, uma cidade muito charmosa no meio do país. As ruas são fechadas para veículos e motos no final do dia e estão cheias de lojinhas com souvenires, lanternas e roupas sob medida que ficam prontas em 24 horas. Para completar o cenário tem um rio que passa no meio dela dando um ar de aconchego. Foi lá que escolhemos para nos despedir de um ano incrível e iniciar mais um ano, completamente novo, pra gente fazer do jeito que quiser.





Passamos o ano em companhia do casal chileno Anita e Rene, que tem feito praticamente o mesmo trajeto com o mesmo open bus. Nossa ceia foi em um restaurante simplinho com comida vietnamita e cerveja, bem a nossa cara, para encerrar o ano como passamos a maior parte dele. Uma pena que a chuva que insistiu em cair durante a noite tirou parte do charme da cidade, mas não a emoção de estar do outro lado do mundo celebrando esse momento tão especial para nós.



E já que era Ano Novo, escolhemos um hotel de gente grande para passar 3 dias e descansar da mochila. Acho que o melhor foi o buffet de café da manhã, com pães, presunto e queijo (tá, o queijo era processado, mas tá valendo), itens que não vemos há meses por aqui. Passados os 3 dias voltamos para nosso quartinho sem café da manhã.



E assim vamos seguindo, cada vez mais para o sul. Hoje vamos de open bus para Dalat, a maior perna da viagem, 18 horas. Ainda bem que o nariz se acostuma com os cheiros depois de alguns minutos, se não, 18 horas com cheiro de chule seria pior que onibus sem banheiro... 

O Vietnam e suas surpresas

Bom pessoal,

Chegamos em Hanói no dia 22 de dezembro a noite e nos hospedamos, por falta de opção, em um hotel de US$ 25,00. Era um super hotel fora dos nossos padrões (tinha até café da manhã), então na manhã seguinte seguimos para outro, próximo, que cobrava US$ 12,00. Agora sim em casa. O bairro do centro antigo de Hanói (ou Old Quater) é o destino de todos os turistas. Mas não tem somente turistas não. Existe muita “vida local” nessa área e lá pode-se perceber as particularidades desse país. Primeiro aqui existem mais motos do que gente. É inacreditável a quantidade de motos por todos os lados. E não existem calçadas, quer dizer, existem, mas elas são utilizadas para estacionar as motos, as pessoas andam pelas ruas desviando das outras motos, bicicletas e carros. Semáforos existem poucos, mas mesmo os poucos não são devidamente respeitados. É um caos que funciona. Pra atravessar a rua é outra aventura porque não é você que vai desviando das motos, são as motos que vão desviando de você. Como regra básica deve-se andar devagar, em linha reta (de preferência) e nunca, nunca correr. Desta forma você chega são e salvo do outro lado. A Raquel uma vez esqueceu de olhar para os dois lados e foi, levemente, atropelada. O tiozinho da moto saiu rindo e ela também. E aqui se come em qualquer lugar. Durante o dia as calçadas são utilizadas como estacionamento ou extensão das lojas, e à noite elas viram restaurantes improvisados com mesinhas e cadeirinhas de criança de todas as cores. A cozinha às vezes fica do outro lado da rua ou mesmo em um lugar desconhecido e você quase nunca sabe de onde a comida vem. Esses são os melhores lugares. Sem nenhuma dúvida aqui comi o melhor Noodles até agora. Hanói é uma loucura. E foi nessa loucura que passamos o Natal. E para minha surpresa eles até que festejam o Natal. Mais de 10% da população daqui é católica. Outra surpresa aqui foi descobrir que eles utilizam o alfabeto romano, mas a pronuncia das palavras é muito parecida com o Chinês (mandarim). Você consegue ler mas não entende nada. É o primeiro país em seis meses que utiliza o alfabeto romano. Outra boa surpresa foi constatar que apesar de todos falarem (outros blogs) que o vietnamita é chato, “grosso” e mal educado não encontramos ninguém até agora que chegue sequer perto desta descrição. Eles são simpáticos, hospitaleiros, dispostos a ajudar e muito sorridentes. Gostei mesmo de Hanói.


Cidade de Hanói


Halong Bay



Depois do Natal, no dia 26, fomos conhecer um dos cartões-postais do Vietnam: a Halong Bay. Mas cartão-postal tem que ter céu azul e não foi isso que encontramos (aqui, the winter is coming). E Infelizmente essa não é a melhor época do ano para visitar essa baia. O tempo estava fechado, com uma chuva fina e um pouco frio. O lugar é muito legal e único mas não posso dizer que foi maravilhoso. Mesmo assim fizemos a programação completa: dois dias e uma noite no barco. Foi legal. A Raquel até me perguntou se estávamos ficando muito exigentes. Acho que não. É só procurar algumas fotos na internet e comparar com as nossas. Conhecemos no barco um casal de brasileiros (Ricardo e Gabriela) e um casal de chilenos (René e Anita). Na volta nos desencontramos e não vimos mais os brasileiros mas o René e a Anita, nós encontramos no ônibus com destino a Hue. E daí pra frente nossa programação tem sido a mesma. 

Em Hue chegamos às 10 hs, depois de uma viagem de 15 horas mas não fizemos nada nesse dia porque a chuva foi constante, somente depois das 20hs é que ela parou e nos deu uma trégua. Pensei que Hue fosse como uma vila mas é uma cidade grande, bem estruturada e com grande tráfego. No dia seguinte, sem chuva, fomos visitar a Cidadela de Hue que é um complexo de palácios cercado por fossos de água do rio Perfume que passa na frente, construído em 1800, foi quase que totalmente destruído durante a guerra. É como se fosse uma mini Cidade Proibida com partes em ruínas. Depois visitamos o mercado central e voltamos para o centro. Não fomos conhecer as outras atrações da cidade que são: duas ou três tumbas, uma pagoda e outro templo, todos fora da cidade. No dia seguinte fomos para Hoi An, onde passamos o Reveillon. Em Hue não conseguimos nos encontrar com o René e a Anita porque não conseguimos nos encontrar no Facebook, o único contato que trocamos (no Vietnam o acesso é proibido mas dá pra burla). O problema é que como estamos, os quatro, no Vietnam, não é possível adicionar ninguém como amigo. Nos encontramos novamente no ônibus para Hoi An e ai trocamos email e whatsaap.


Cidade de Hue




Hoi An é uma cidade muito bonita, tem um pequeno centro antigo no estilo colonial que hoje foi transformado em área comercial turística e é aqui que estão concentrados todos os restaurantes, lojas, café e atrações da cidade. A cidade é cortada por um rio e um canal que traz uma beleza, um charme todo especial. É nesse canal que as pessoas colocam pequenas lanternas de papelão com velas, o que deixa o ambiente ainda mais bonito. E aqui, e por causa do réveillon, nós decidimos abrir o caixa-dois e ficar em um hotel mais caprichado. Foram três noite muito bem dormidas e com café-da-manhã como nunca vimos nessa viagem. Foi pra tirar a barriga da miséria. E passeamos muito pela cidade mas também curtimos muito fazer nada no hotel, dormindo todas as tardes depois do almoço (“só pra descansar um pouquinho”), saindo somente à noite para ver a movimentação. O Réveillon passamos junto com o René e a Anita no centrinho. Fomos comer em um pequeno mercado com vários restaurantes com preços bem razoáveis de comida e chopp por 25 centavos de dólar (eles chamam de Fresh Beer). Pena que exatamente nessa noite choveu um pouco tirando o brilho da festa que estava programada com palco, música ao vivo, homenagens e contagem regressiva. Mesmo assim as ruas estavam lotadas e a festa aconteceu conforme planejado. O estranho foi perceber que apenas os estrangeiros comemoraram a passagem do ano, com abraços, beijos e desejos de felicidades. Os locais simplesmente ficaram olhando, observando e depois foram embora. Uns pouco comemoraram como nós, é verdade, mas muito poucos. Deve ser porque aqui o ano deles só começa em fevereiro, igual na China. A festa em fevereiro deve ser bem melhor. Ficamos mais dois dias em Hoi An e aproveitamos para comer algumas coisas especiais que tem por aqui: o cau lao, um sanduiche e o churrasquinho. Cau lao é o noodles daqui, o sanduiche é uma bagete média com muitas verduras, folhas, carne e molhos muito gostosos e o churrasquinho é um set que você mesmo monta: em uma folha de papel de arroz você coloca todos os ingredientes (folhas, pepino e frango assado na brasa), enrola e molha em um molho especial com amendoim. Já tinha comido antes no Brasil, mas essa foi a minha primeira vez na calçada, no melhor estilo vietnamita. Que venha 2015.

Cidade de Hoi An






Valeu.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Feliz Ano Novo

Dentre muitas histórias que ouvimos por ai, gostaríamos de compartilhar uma delas, é sobre o deus hindu Ganesh, um dos mais populares. Primeiro algumas explicações se fazem necessárias. No hinduísmo, que tivemos mais contato na Índia e no Nepal, existem mais de três milhões de deuses e infinitas histórias sobre eles. Muitas vezes a mesma história tem várias versões. A história que queremos contar é sobre o deus Ganesh que tem corpo de homem (um menino), cabeça de elefante (como ele ficou assim é outra história) e o seu veículo é um rato. Além de ser o deus da prosperidade e da fortuna ele também é o guardião do exército celestial. A história é de como ele se tornou o guardião do exército celestial e a versão foi uma que escutamos no Nepal. É claro que não nos recordamos exatamente das mesmas palavras, portanto talvez essa seja mais uma versão das infinitas histórias do hinduísmo.

Diz a lenda que o deus Shiva convocou todos os deuses para uma competição e quem a vencesse se tornaria o guardião celestial. A competição era bem simples: o primeiro que desse uma volta ao mundo seria o vencedor. Ao tomar conhecimento da competição Ganesh ficou muito preocupado pois imaginava que tinha poucas chances de vence-la já que seu veículo era um rato. Sem saber exatamente o que fazer, Ganesh retornou para sua vila onde viviam seus parentes e amigos. Depois de algum tempo junto das pessoas que ele mais queria e amava e de refletir bastante sobre a sua situação, ele acabou percebendo que aquele era seu mundo, que sua vila e as pessoas que ele amava eram sua vida e seu mundo e portanto ele tinha finalizado o desafio. Ao retornar para o local de chegada todos ficaram muito surpresos e queriam saber como ele tinha conseguido completar a jornada de volta ao mundo mais rápido que os demais. Ele contou o que tinha acontecido e o deus Shiva ficou satisfeito com a explicação, proclamando-o guardião do exército celestial.

Portanto, em 2015, nós desejamos a todos vocês que deem várias voltas ao mundo, muitas vezes no ano, estando próximo das pessoas que vocês amam. E mesmo que elas estejam distantes, que vocês sintam que quanto mais longe, mais perto elas estão de nós, em nossos corações e mentes.


Feliz 2015 para todos.

Lucio e Raquel

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Laos sem pressa

Laos foi um lugar para deixar o tempo passar no meio da paz e da tranquilidade. É verdade que não se tem nenhuma grande atração turística, mas a simplicidade e a gentileza desse povo nos faz querer estar lá, simplesmente por estar.

Existe uma risada gostosa por todos os lados, aquela risada com vontade porque realmente é verdadeira. Talvez porque, apesar da pobreza, parece que o que é mais importante, a família, está sempre por perto. Crianças cuidam de crianças, mães cozinham para a família, pais brincam com os filhos, todos cuidam dos idosos e todos estão juntos sempre. O governo incentiva que todos tenham o seu próprio negócio, que em geral é uma vendinha, bem vendinha mesmo, na porta de frente da casa. E passam o dia lá, sentados num banquinho, conversando entre eles, entre os vizinhos, almoçam e jantam na calçada todos juntos, sem pressa pra nada.

Da fronteira da Thailandia fomos de barco até Luang Prabang, uma viagem de 2 dias descendo o Rio Mekong. Um barco que foi lento, desviando das pedras, em meio à natureza, legal no começo mas no final do primeiro dia já estava entediada achando que era melhor ter ido de ônibus pela metade do tempo. Ainda bem que o Lucio me lembrou que estamos no nosso ano sabático, sem pressa, para curtir, e afinal, quando teríamos a oportunidade de viajar de barco de novo? E assim fomos, no ritmo do barco, até nosso primeiro destino.

Luang Prabang é um charme, uma cidade toda arrumadinha que mantém sua fachada da época da colonização francesa. Andando pelas ruas existe uma paz difícil de explicar, ruas limpas, silenciosas, templos e escolas para monges, tudo isso envolto pelos rituais budistas como a ronda das almas, o tocar dos sinos às 4 e às 16 horas, a reza às 18 horas.

Ponte ligando as vilas de Luang Prabang

A ronda das almas é muito bonita, os monges passam todas as manhãs lá pelas 6 horas pelas ruas da cidade, descalços e com a cesta para receber os alimentos doados pelos moradores. Talvez mais bonito que isso é a devoção das senhoras que acordam mais cedo ainda para preparar o stick rice e os esperam nas suas portas todos os dias. Fomos ver o ritual 3 das 6 manhãs que ficamos na cidade.



Desde a Tailandia tenho observado e pensado nos monges. A ideia que tinha era de um senhor oriental serio que vivia apartado de tudo, um ser soberano que vivia de ar. O que vi em minha andança por aí são jovens, risonhos, brincalhões, jogam bola, alguns fumam, todos tem celular, fazem turismo, compram lembranças. Em LP se tem muitos estudantes de monges, uma forma dos meninos terem boa educação já que as escolas são caras. Eles precisam de cerca de 6 anos para completar a formação. Muitos não se tornam monges, mas quase a maioria dos homens estudaram nos templos em algum período de suas vidas. 

O mercado noturno é outra atração gostosa, uma rua grande que se transforma à noite com as barracas vendendo roupas, lenços, pinturas e souvenires. As laosianas são muito cuidadosas, arrumam cada detalhe da sua barraquinha, não ficam gritando querendo chamar os turistas, e não fazem qualquer negócio, valorizam suas mercadorias sendo justas no valor. Fomos lá quase todas as noites.



Ficamos 6 dias na cidade, “presos” esperando o tempo de processamento do visto vietnamita. Andamos por ali, de um lado do rio, do outro lado do rio, visitamos alguns templos e fomos conhecer a cachoeira Kuang Si, distante 45 minutos da cidade. Uma cachoeira muito bonita que ao longo do caminho vai formando varias piscinas de calcário.



A comida é muito boa. Eles usam várias ervas, principalmente o capim limão e o coentro. O sabor é intenso mas suave, sem pimenta, e como acompanhamento, se não o principal, é o stick rice, um arroz bem grudento parecido com o motigome mas mais duro. O melhor de tudo é comer com as mãos, faz umas bolinhas de arroz com a mão, junta com a comida que em geral não tem muito liquido e manda ver. Ah, porcausa da colonização francesa tem muitas padarias com baguete. Matamos saudades de um pãozinho francês.

Frango com legumes e leite de coco, delicia!

Peixe do Rio Mekong, divino!

Frango com bambu frito, sensacional!

De lá fomos para Nong Kiaw, uma vilazinha a 3 horas e muitas curvas de Luang Prabang. Ela é bem pequena, cercada de montanhas. Faz muito frio, já tinha me esquecido da sensação do frio e quase não tenho roupa já que depois do trekking do Nepal despachei quase tudo de frio que tinha. Subimos no view point, uma caminhada de 1h30 para uma visão espetacular da cidade, lindo. Depois alugamos uma bike e fomos andar por aí, parando para conhecer uma caverna no meio do caminho e passando por algumas vilas locais.

Vista do view point

Nós 2 na ponte da cidade que liga o lado turístico e o lado local

Porque simplicidade pouca é bobagem fomos mais para o interior ainda, em Muang Ngoi, outra vilazinha a 1 hora de barco de Nong Kiaw. Até o ano passado não tinha energia elétrica e hoje, apesar de ter um lado turístico com pousadas e cardápio em inglês, ainda mantem muito do seu dia a dia sem interferências ocidentais. A rua principal é a única da cidade, de terra, com casas muito simples, todas com um mini comercio na frente. À noite eles acendem uma fogueira e juntam a família toda em volta para comer e se aquecer. Caminhamos um dia todo para conhecer uma caverna e mais adiante uma vila mais simples ainda, com casas de palhas, mesmo assim cada uma com sua lojinha na frente, fogareiro, família reunida, jogo de bola, meninos brincando de pião, cada um no seu ritmo. Comemos em um restaurante, na verdade o único da vila, onde a senhorinha foi buscar na horta os legumes que iríamos comer. Não tem como um simples fried rice com ovo e legumes não ser sensacional.

Rua principal
Hill Village

Vendinha na frente de casa

Voltamos de barco para Nong Kiaw e de lá fomos para San Neua, uma cidade fria no meio da montanha, distante 10 horas, muitas curvas e muita poeira. As estradas do Laos são as piores que já andamos, vão contornando as montanhas e de tempos em tempos passamos por uma vilazinha aqui outra ali. Paradas para banheiro é no meio da estrada, cada um vai atrás do seu matinho e se arranja por lá. Uma diversão.

A atração de San Neua são as cavernas de Vieng Xai, distante 1 hora da cidade. Foi lá que o governo comunista conseguiu se proteger dos constantes ataques dos Estados Unidos entre os anos de 1964 e 1973. Casas, escolas, hospital, sede do governo, tudo funcionava nas cavernas da região onde o povo se escondia. Uma história tão recente ainda carrega suas marcas, algumas bombas que não explodiram no lançamento representam riscos para a população e o solo só deve se descontaminar daqui a 20 anos. Esse período foi conhecido como Guerra Secreta porque na época todos os olhares eram para a Guerra do Vietnã, mas a verdade é que o Laos foi o país mais bombardeado da guerra.

Sala de estar em uma das cavernas que era escritório político

De lá atravessamos a fronteira para o Vietnã em outra viagem de 10 horas. Quando a viagem é longa e inclui uma fronteira, em geral os ônibus são bem ok. Bom, não foi esse o caso, pegamos um micro ônibus bem velhinho, apertado e abarrotado de laosianos e vietnamitas. Claro, naquelas estradas um ônibus grande não conseguiria andar. E lá fomos nós, para a estrada mais poeirenta e esburacada que já andamos, com direito a ônibus quebrado e saquinhos de vômitos sendo jogados pelas janelas. Diversão garantida, para eles, assistindo os dois turistas no meio da poeira. Ah, quando vamos ter oportunidade de viajar assim de novo?

Onibus quebrado no meio do caminho empoeirado

E assim foi o Laos, curtimos o país sem pressa, em meio à paz, tranquilidade, monges, montanhas, frio, estradas empoeiradas, comida boa e gente do bem. E como isso faz bem. Bem pra alma, bem pro coração. 

Laos

Bom pessoal,


Entramos no Laos pelo norte, na fronteira com a Tailândia. O que separa os dois países nessa região é o rio Mekong. Estava na expectativa de cruzar a fronteira de barco (seria a primeira vez), mas os dois países construíram uma ponte e fizemos a travessia de ônibus. Tudo bem porque passamos esse mesmo dia e o outro dentro de um barco no mesmo rio. Foram dois dias, com uma parada para dormir em uma vila, dentro de um barco. No primeiro dia foram 7 horas e no segundo mais de 9 horas. Deu para tempo para achar todo muito bonito e tudo nem tão bonito assim. No caminho somente floresta e montanhas. Mas valeu.

Barco-Ônibus

Nosso destino era Luang Prabang, uma das melhores surpresas de toda a viagem. Uma cidade no coração da floresta que me surpreendeu de várias formas. Primeiro pelo clima: nessa época do ano a temperatura durante o dia fica em torno de 25º e durante a noite chega a 18º, bem agradável. Outra surpresa foi a cidade em si: todo o centro antigo é em estilo colonial francês, com casinhas muito bonitas, tudo muito arrumado, tranquila, com bons restaurantes, padarias, cafés e hotéis, os templos tem muros baixos (se pode ver de longe) e a feira noturna que acontece todos os dias é uma beleza: sem ninguém gritando, falando alto, oferendo coisas insistentemente para você comprar, com alguns produtos bem bonitos e com um setor de comidas todo especial. Cidade para se morar. Outra coisa surpreendente foi a comida: mais sofisticada que a de Myanmar, menos apimentada e com mais sal que a da Tailândia e com um tempero próprio muito gostoso (eles utilizam muito coentro e tamarindo nos molhos). Ah, aqui tem pão francês (bagete) e todas as maravilhas de uma padaria. Entramos até em restaurantes sem nenhuma pessoa, contrariando nossas regras básicas, mas não nos arrependemos. A comida foi sempre muito boa. Ok, teve um dia que passamos mal, mas faz parte. Talvez tenha sido a pipoca.

Rua principal
Feira noturna
Tuk Tuk

Passamos seis note em Luang Prabang e isso nos deus oportunidade de andar muito e conhecer bem o lado mais turístico dela. Ficamos todo esse tempo porque fizemos a solicitação do visto para o Vietnam e ele iria demorar dois dias úteis. Como solicitamos numa quinta, ele só ficou pronto na segunda. Visitamos todos os templos e curtimos muito fazer nada. Fomos também conhecer uma região com várias cachoeiras que é obrigatório para quem visita a cidade. De Luang Prabang tínhamos dois roteiros: descer para o sul com destinos a Vang Vieng e depois Vientiane, a capital, e depois pegar um avião para o Vietnam ou subir para o norte, conhecer as cidades de Nong Khiaw, Muang Ngoy, Sam Neua e Viang Xai, e depois pegar um ônibus para Hanoi no Vietnam. E decidimos fazer o caminho do norte. Foi uma boa decisão porque fomos a lugares pouco frequentados por turistas mas por outro lados, pelo mesmo motivo, também não foi uma decisão muito boa. Enquanto fomos a lugares bonitos e inexplorados, também tivemos que aguentar trajetos de ônibus quase insuportáveis. O mais difícil no Laos foram os deslocamentos quase infinitos que fizemos.




De Luang Prabang para Nong Khiaw foi a parte fácil: foram quase 4 horas em uma van. Chegamos e podemos constatar que não tinha muita coisa para ver na cidade como era esperado. As grandes atrações são as cavernas e fazer um passeio de barco pelo rio, indo para vilas, cachoeiras e fazendo kayaking. Alugamos uma bicicleta e fomos conhecer a caverna e passear por ai, no dia seguinte ao invés de fazer o passeio de barco, pegamos um barco-ônibus e fomos para uma das vilas (1 hora de barco rio acima), Muang Ngoy, e ficamos por lá mais duas noites. Bem mais remota que a primeira, Muang Ngoy tem uma rua principal e única, e não muito mais. Visitamos outra vila próxima, mais uma caverna e andamos bastante. Essa vila é bem tranquila, sem carros, motos, iluminação pública, todos os restaurantes fecham as 21hs e você sempre é acordado pelo canto dos galos. E eles são muitos. Mas não se preocupe, também tem boa comida e internet. Quem precisa de mais? E a cada cidade que avançamos para o norte a temperatura cai mais ainda. Teve noite que estava abaixo de 10º. Não esperávamos por isso.

Nong Khiaw
Muang Ngoy
No dia seguinte foi um dos dias mais difíceis que tivemos. Saímos da vila as 9:30 e chegamos na rodoviária da Nong Khiaw as 10:30. Compramos o bilhete para Sam Neua e a van deveria sair as 12:00 mas ela só chegou às 14:00. Partimos pouco tempo depois para uma viagem de 10 horas por estradas de serra, com muitas curvas, pouco asfalto, sendo jogado para todo lado. Algumas pessoas enjoaram na Van (coisa bem comum por aqui) e para me distrair fui conversando com o outro estrangeiro que tinha no carro. Ele era da Califórnia. Chegamos em Sam Neua já era meia noite e fomos direto para o hotel indicado pelo motorista da Van, ele também ficou lá. No dia seguinte fomos conhecer a cidade de Viang Xai. Este foi o lugar onde a resistência comunista do Laos se instalou durante a guerra do Vietnam. A guerra foi contra o Vietnam mas o Laos foi o país mais bombardeado pelos Estados Unidos. Foi mais bombardeado do que a Europa na segunda guerra. Para se protegerem dos ataques, a resistência utilizou várias cavernas que existem na região, eles também abriram novas cavernas e construíram instalações até que confortáveis, considerando a situação. Foram quase 10 anos de ataques com o único propósito de tentar impedir o avanço do comunismos na região. Boa parte da população foi atacada sem saber nem por quem, nem porquê. Até hoje não se sabe quantos foram mortos. Mas eles conseguiram resistir e com o final da guerra eles assumiram o poder e estão lá até hoje. Depois de muita história voltamos para Sam Neua para descansar, dormir e nos preparar para a viagem do próximo dia: uma viagem de 12 horas até Hanói no Vietnam.

Cavernas em Viang Xai


Esse viagem vai entrar no Top 3 de piores viagem de todos os tempos. Foram 3 horas de Sam Neua até a fronteira, um trajeto de 100km, ou seja, viajamos à 30 km/h, e o micro-ônibus era tão velho e a estrada era tão empoeirada, que a poeira tomava conta de tudo e as vezes ficava impossível respirar. Era surreal, em alguns momentos tinha mais poeira dentro do ônibus do que do lado de fora. Chegamos na fronteira e feito todos os tramites de saída do Laos, andamos até o lado do Vietnam e daí entramos oficialmente no nosso 14º país. Paramos para almoçar logo depois da fronteira e depois continuamos. Naquele momento só restava pedir, implorar e rezar para que a estrada no lado do Vietnam fosse melhor. Mas não adiantou. A estrada na região de serra do lado do Vietnam está sendo reconstruída e não tem nem asfalto, é só terra, areia e poeira. Muita poeira. Daqui em diante viajamos com um pano no nariz e na boca para tentar respirar melhor. Enquanto isso a poeira ia se acumulando nas nossas roupas e nas nossas mochilas que estavam no bagageiro e ficaram indescritíveis. E assim foi até as 14:30 quando mudamos de ônibus pela primeira vez. Agora era um micro-ônibus novo. Sem poeira, consegui curtir um pouco a viagem, vendo a paisagem, as várias vilas, muitos arrozais, pessoas simples. Mas a estrada continuava a mesma. E somente as 18:00, quando mudamos, agora para um ônibus, foi que a estrada ficou do jeito que imaginamos que deve ser uma estrada: asfalto com largura suficiente para dois carros, uma faixa no meio, acostamento. No ônibus tinha até televisão e estava passando um filme chinês do Jack Chan bem antigo. Chegamos em Hanói as 20:00 e não sabíamos aonde estávamos (existem três estações de ônibus). Depois de nos localizarmos, pegamos um taxi e fomos para o Old Quater ou centro antigo de Hanói, onde tudo acontece. Mais um país.


Valeu.