Estamos em um ano sabático para conhecer o mundo e a nós mesmos. Para isso manteremos nossos olhos, mentes e corações atentos e abertos por onde estivermos. Toda semana faremos um relato do que passou e por onde passamos. Como tudo na vida tem dois lados, serão duas visões sobre os mesmos momentos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Do céu ao inferno, de Agra a Varanasi

Ah, que linda historia de amor... o Taj Mahal é a maior declaração de amor imortalizada por uma das mais belas construções que já vi. Já tinha visto inúmeras fotos e imaginado como era, mas estar lá, de corpo e alma, absorvendo sua perfeição, ao nascer do sol, foi um momento de pura emoção. E são momentos assim, sublimes, que faz tudo valer a pena, vale a pena estar na Índia, vale a pena encarar um ano de mochilão, vale a pena ter dor de barriga, vale a pena sentir saudades. O Taj não precisa de palavras, é contemplar e sentir. Do jeito que eu gosto.

Ah, o Taj!

Nós 2 no Taj

Além do Taj, Agra tem outros dois fortes. Agra Fort, onde o rei que mandou construir o Taj para sua falecida esposa ficou preso durante 8 anos podendo admirá-lo somente do outro lado do rio, e Fatehpur Sikri, um complexo de castelos onde outro rei (aqui tá cheio de reis) mandou construir um palácio para cada uma de suas 3 esposas, uma hindu, outra muçulmana e outra católica. Mas de verdade, depois de ver o Taj, os outros ficaram sem graça.

Agra Fort e o Taj visto de onde o rei passou seus ultimos dias preso

Fatehpur Sikri, a cidade fantasma. Foi logo abandonada por dificuldade de abastecimento de agua

Em Agra nos despedimos de nosso motorista e fomos de trem noturno para Varanasi. A malha ferroviária daqui é enorme, se vai para qualquer lugar e a passagem é muito barata. Ratos tem aos montes passeando pelos trilhos, teve um que quase subiu no meu tenis (ainda bem que não era uma barata). Aquelas cenas que vemos dos indianos pendurados nos trens... não é tudo isso, mas chega perto. Ainda bem que nosso ticket era a segunda melhor classe do trem que consistia em 2 beliches separadas por uma cortina do corredor de passagem. O trem é mais feio do que eu imaginava mas a viagem foi melhor do que eu imaginava.

Varanasi é a expressão máxima da Índia, em todos os sentidos. Como estávamos de motorista fomos blindados da intensidade da cidade, mas mesmo da bolha pudemos ter uma amostra de tudo que ela oferece. São nos mais de 360 gaths do Rio Ganges que a cidade se constrói, tendo como tema os rituais de vida e morte. Fizemos um passeio de barco às 5h30 da manhã para ver a vida como ela é. Banho, reza, higiene, purificação, cremação, fé. Tudo junto, no mesmo rio sagrado que, para os hindus, possui uma força sem igual. À noite acompanhamos uma cerimônia na escadaria principal, onde todos os dias, ela reúne centenas de pessoas para rezar por paz e amor. Foi bonito, mas mais bonito do que ela própria, foi ver a devoção dessas pessoas.

Nascer do sol no Rio Ganges

6h30 às margens do Rio Ganges

6h30 às margens do Rio Ganges

6h30 às margens do Rio Ganges

6h30 às margens do Rio Ganges

6h30 às margens do Rio Ganges - tranquilidade

6h30 às margens do Rio Ganges - crematório

Oferenda, agradecendo e pedindo proteção

Cerimonia no final do dia

Depois de 19 dias estamos indo embora. Assim que chegamos achei que tínhamos dimensionado mal o tempo, que era melhor ter escolhido só o triângulo dourado (Delhi, Jaipur e Agra). Hoje, acho que fizemos no tempo que tinha que ser, tempo de se chocar, de resistir, de processar, de ver poesia e até de se encantar, por que não? Passamos por 6 cidades, uma diferente da outra, vendo caos, meditação, palácios, Rio Ganges, fé, muita fé. Não gostei de ficar com motorista o tempo todo, mas entendi que, para mochileiros nível básico como nós, foi a melhor alternativa. Gostaria de ter tido mais contato com as pessoas, na verdade gostaria de ter estado mais aberta para uma conversa. O mesmo olhar curioso que temos ao vê-los é retribuído, na proporção indiana, para nós. Eles querem saber de onde somos, entender como uma “chinesa” pode ser brasileira (aqui as pessoas continuam achando que eu sou chinesa), querem tirar foto. Teve um dia que um grupo escolar de umas 30 pessoas nos cercaram e perguntaram se podiam nos fotografar. Falamos que ok sem imaginar que a sessão foto duraria uns 10 minutos com umas 20 cameras apontadas para nós. Um barato. Sempre que eu largava minha armadura e sorria, recebia um sorriso de volta. As pessoas que nos atenderam em hotéis e restaurantes foram de uma gentiliza que não vimos igual nessa viagem.

Sempre me emociono ao deixar um país. São vivências intensas, tão diferentes daquelas que estamos acostumados... algumas são esperadas, outras nem imaginamos. Descobrimos coisas novas e resignificamos outras, dando sentido ao momento atual, até vir novas experiências, e novos resignificados.

Aqui aprendi a agradecer. Tão obvio. Tão simples. Nada obvio.

Quem sabe não voltamos pra cá na nossa segunda volta ao mundo e dessa vez de forma independente? Vai pensando Lucio... 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Índia: Segundo Tempo

Bom pessoal,

De Delhi seguimos para o Rajastão. Fomos conhecer principalmente as cidades de Udaipur e Jaipur. Como Udaipur é bem distante de Delhi fizemos uma parada estratégica na cidade de Pushkar. A estrada era bem melhor que a outra mas mesmo assim nada muito animador. Talvez daqui a 5 anos esteja finalizada porque hoje ela está em todos os estágios da construção, dependendo do trecho. Com isso a velocidade média é de 50 Km por hora. Haja saco.

Chegamos depois das 4 da tarde e eu estava bastante cansado e com fome. Ainda não estava gostando nada da Índia. Pushkar é uma cidade pequenininha como Rishikeshi, mas ao invés de um rio sagrado eles tem uma lago sagrado. O lago artificial fica no meio da cidade. Deixamos nossas coisas no hotel e seguimos para o centrinho onde estão os restaurantes, lojas, templos e o lago. Além disso tem muitas pessoas tentando te aplicar mais um golpe: eles te oferecem pétalas de rosas, quando você recusa eles dizem que não são para você, são para os deuses, por respeito e quando você aceita eles te “exigem” até 1.000 rupias (ou 170 dólares). Já conhecíamos e não caímos nessa. Fomos conhecer primeiro o Templo Brahma. Não, não é o templo da cerveja, Brahma é o deus-criador do hinduísmo, e somente a Raquel conheceu. Um dos ditados que temos que aprender quando conhecemos outras cultura é: “Minha casa, minhas regras”. No templo não se pode entrar calçado, com câmeras ou mesmo mochila. Não ia deixar minha mochila num box na rua. Ainda não estou à vontade com nada imagina confiar nesse tipo de serviço. Depois fomos almoçar e ver o pôr-do-sol da escadaria do lago. Foi bem bonito por causa do sol e do som. Tinha um grupo de percussionistas que tocou até o sol se por. Muito bonito, mas a maioria das pessoas, principalmente os indianos, ficaram mais interessados em uma menina (ocidental) que estava dançando com um bambolê ao som da percussão. Os indianos ficaram hipnotizados. Tem muitos ocidentais nessa cidade e quase todos com cara de bicho-grilo. E eu entendi o porquê no restaurante onde almoçamos: o cara nos ofereceu de sobremesa um bolo de maconha (que recusamos). Não sei se é liberado, mas parece que é livremente consumida.
Pòr-so-sol em Pushkar
Voltamos para o hotel e no dia seguinte mais um dia de viagem até Udaipur. Todas as viagens me deixam estressados. É o trânsito, a bagunça, o desrespeito, a estrada, enfim tudo. Chegamos e só saímos no dia seguinte. Primeiro fomos conhecer um museu a céu aberto que apresentava os vários tipos de povos da índia, suas casas, danças e músicas. Éramos somente eu e a Raquel. Muita atenção pro meu gosto. Não gostei. Dali mudamos a programação que o Gris, nosso motorista, tinha feito e seguimos direto para o centro para conhecer as principais atrações e também para dispensa-lo pois de lá para o hotel não era muito distante. Não gostei da ideia pois uma das coisas que não estou gostando nada é andar por ai, mas prometi fazer tudo que a Raquel tinha programado. Fomos e a cidade antiga de Udaipur foi a melhor cidade que conhecemos até agora. A bagunça é menor, o trânsito mais calmo (só tem uma rua) e as atrações estão todas bem próximas. Andamos pelo centro com muitas lojas de roupas e artesanato e até comprei os imãs de geladeira, que são as únicas coisas que estamos comprando de lembrança dos lugares que visitamos.


Cidade Antiga de Udaipur
Nesse dia fiquei tentando entender o porquê de tanta repulsa em relação a Índia. Já vi miséria igual a daqui, já vi pobreza igual a daqui, tanto em outros países como no Brasil. Então, porquê? Talvez porque aqui a coisa seja mais generalizada do que nos outros lugares? Ou porque, no meu inconsciente, miséria e pobreza (favela e periferia) estão quase sempre associados a risco, perigo e violência, e fico sempre em alerta? Mas nunca vi nenhuma situação de risco ou violência onde andei. Quando saímos de viagem prometi manter os olhos, coração e mente abertos, mas não tá dando. Não sei porque. Mas no décimo segundo dia eu descansei, relaxei. Parei de pensar em tudo e passei apenas a observar a vida como ela é e não como eu achava, arrogantemente talvez, que poderia ou supostamente deveria ser. Voltei a ser eu mesmo. No outro dia fomos conhecer o City Palace, um palácio com mais de 200 metros de comprimento e o lago Pichhola, um lago artificial com duas ilhas que hoje são: um hotel de luxo (exclusivíssimo) uma, e um restaurante (mais popular) a outra. Fizemos um passeio de barco pelo lago e paramos no restaurante para conhecer mas não almoçamos por lá. Ele é popular mas não tanto. Fomos almoçar no centro num restaurante recomendado pelo guia: pequeno com boa comida e muito barato. Muito bom.

Pátio interno do City Palace em Udaipur
City Palace de Udaipur e o Lago Pichhola
No outro dia, mais um dia de viagem. E essa prometia: de Udaipur para Jaipur, mais de 600 quilômetros. Então para não ficar estressado de novo, resolvi utilizar uma técnica que uso no trabalho quando o bicho pega: escutar brega. Fernando Mendes, Paulo Sérgio, Agnaldo Timóteo, Bartô Galeno, entre outros do nosso cancioneiro popular. Quem já trabalhou comigo sabe como é. E como, as vezes, escutar não basta, também quero compartilhar, gostaria de pedir desculpas aos com ouvidos mais exigentes. Mas que saber? Deu certo. 



Forte Amber em Jaipur
Detalhe do Forte



Chegamos em Jaipur no final do dia e não fizemos mais nada. Jaipur é conhecida como a cidade rosa porque em 1876 o Marajá mandou pintar toda a cidade para receber o Príncipe de Gales. Não sei se são meus olhos mas rosa aqui não é exatamente rosa, tá mais pra um vermelho cor de telha, parecido com Marrakesh no Marrocos. No dia seguinte fomos conhecer o Forte Amber, construído no topo de uma montanha e rodeado por muralhas para todos os lados que mais pareciam a Muralha da China, o City Palace e o Hawa Mahal ou Palácio dos Ventos. Andamos um pouco pelo centro e até ri das piadinha que faziam em todos os lugares sobre a minha camisa: uma reprodução da obra “Banana” de Andy Warhol. Parece que todos aqui gostaram da minha banana. Kkkkkkk. Agora é aguardar amanhã para seguir viagem para Agra e depois Varanasi. Mas estou mais tranquilo e à vontade para continuar sem problemas. Mas só para garantir, vou recarregar a bateria do ipod.

Palácio Hawa Mahal
Detalhe de uma porta no City Palace em Jaipur
Um indiano fazendo turismo

Valeu.

A Índia também pode ser poesia: um passeio pelo Rajastão

A Índia é a Índia em qualquer lugar da Índia. Tanto faz estar enlouquecendo na caótica Delhi ou meditando em Rishikesh ou dando uma de marajá no Rajastão... ela vai continuar sendo a Índia. 

Bom, depois dessa constatação, percebi que o que tinha que mudar era o meu olhar, que precisava abstrair a pobreza, a sujeira, a buzina e os malandros e ver as paisagens sob um novo ângulo. Assim, criei o projeto “A Índia também pode ser poesia” e tenho trabalhado nele há 1 semana. A fórmula é máquina fotográfica na mão, olhos atentos e coração aberto. Simples assim. E não é que está dando certo?

Ah, meu assistente de produção, o Lucio, no começo não demonstrou nenhum interesse, mas com o passar dos dias ele foi se envolvendo e quase pude ver um sorriso diante de uma “poesia”.  

Vem comigo.

Pushkar foi a primeira parada do passeio pelo Rajastão. Uma cidade sagrada na qual o principal atrativo é o lago onde as pessoas tomam banho em uma das 52 escadarias. Foi alí que fui surpreendida por um belíssimo pôr do sol acompanhado de uma musica de tambor tocada por 2 locais. Poesia pura. 



De lá fomos para Udaipur, conhecida como a Veneza da Índia. Dentro dos padrões indianos ela realmente é bem romântica, com um centrinho de ruelas estreitas rodeado pelo Lago Pichola e um lindo castelo, o City Palace. 

Corredores de colunas compõem um dos pátios internos do castelo
Contemplando...

Decoração bem cuidada em uma das passagens do castelo 

Cena típica, saris e cores

Terminamos a visita com um passeio de barco pelo Lago Pichola. Esse é um dos portais para banho.

Visitamos também o Templo Jagdish e o Bagore-Ki Haveli, um casa antiga transformada em museu.


Detalhe da coluna do templo

Interior da Haveli, parece quarto de princesa

O restante do tempo passamos apreciando a paisagem através das vistas dos restaurantes, onde descobrimos que sim, existe cerveja na Índia, e com graduação alcoólica de 8%. 

Restaurante no centrinho da cidade, vista para o Lago Pichola

Restaurante do nosso hotel, também vista para o Lago Pchola, mas mais distante

E por último fomos para Jaipur, a capital do Rajastão. Depois de passar por cidades fora do circuito turístico, voltamos para aquela bagunça típica daqui. Não sei se foi porque estamos mais acostumados, ou porque fizemos tudo com motorista, ou mesmo porcauca da vibe da poesia, mas a bagunça nem pareceu tão grande assim. Na verdade nos divertimos muito nessa cidade, conhecida pelos palácios e castelos dos marajás. Visitamos o Fort Amber, City Palace e Palácio dos Ventos que é o principal cartão postal do país.

Nós 2 com vista para o pátio central do Amber Fort. É enorme, cercada por uma muralha que vai montanha abaixo e acima. 

Um dos portais do Palácio do Amber Fort, bem detalhado, muito bonito

Caí no golpe achando que era uma foto autentica, mas são mulheres que posam em troca de dinheiro. Mas gostei da foto mesmo assim.

Sala dos espelhos, toda brilhante.

Nós 2 no Jal Mahal, antigo Palácio de Verão onde, dos 3 andares, 1,5 fica debaixo da água.

City Palace, um complexo grande, muito bonito. A familia do maraja ainda mora em uma parte do castelo.

City Palace, pátio principal

City Palace, pátio secundário

Palácio dos Ventos, foi construído para que as mulheres pudessem ver a rua sem serem vistas

Interior do Palácio dos Ventos

Temos feito todos os trajetos de carro, alguns trechos são bons, outros uma loucura. Nosso motorista é bem experiente, no começo achava que ele era totalmente irresponsável, mas depois vi que o jeito do indiano dirigir é diferente do que conhecemos. Minha técnica é colocar o ipod, ler quando o carro não está balançando muito ou dormir. E até nas estradas a Índia surpreende, olha o caminhão, são todos assim, coloridos e decorados. Uma poesia! 

Caminhão nas estradas da Índia

Foi uma semana diferente, nunca fiz tanta questão de fotografar, E não somente paisagens e monumentos, mas detalhes ou qualquer coisa que pudesse compor o meu projeto. Acho que deu certo, estou curtindo estar aqui. E o passeio continua... 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Índia: ame-a ou deixe-a

Bom pessoal,

Não amei, mas ainda estou aqui. Estamos na Índia, o país das contradições. Chegamos no aeroporto internacional Indira Gandhi, e fora daquele ambiente “esterilizado” do aeroporto, me deparei com a realidade. Chegamos de madrugada e não vimos o trânsito mas quando chegamos no bairro do nosso hotel, sinceramente, achei que tivesse entrado em uma favela. O hotel é excelente, simples mas bem acima do nosso padrão nessa viagem. O entorno é que é complicado. Mas não me entendam mal, não é perigoso, violento, é apenas Delhi. Uma realidade que você aceita ou rejeita. O nosso guia (lonely planet) diz que saindo do aeroporto existem dois tipos de turistas: os que aceitam, aprendem e se acostumam e os que não veem a hora de ir embora. Nem uma coisa nem outra. Não simpatizei, não me acostumei (ainda), mas não quero ir embora. E a contradição está no fato da pobreza, da miséria, da desorganização, do trânsito caótico e da população serem exatamente do mesmo tamanho da gentileza, respeito e cuidado com que estamos sendo tratados e do sorriso dos indianos. Acho que é impossível descrever o ambiente, a pobreza, o trânsito e as pessoas com clareza suficiente para que alguém de longe, distante, consiga realmente perceber a realidade. Só estando aqui para saber. Outra contradição é que existem muitas pessoas que se utilizam exatamente dessas qualidades para aplicar golpes nos turistas mais desavisados, alguns muito bem elaborados e que envolvem muitas pessoas. Uma pequena busca na internet e você vai conhecer alguns. Por isso, as vezes é difícil acreditar em tanta gentileza. E isso esta me deixando muito reativo a tudo e a todos.



Conforme nos planejamos e prometemos a nossos pais, contratamos uma agencia de turismo para viajar por essas bandas. Fizemos um roteiro e a agencia nos disponibilizou um motorista particular que vai nos levar para onde quisermos na hora que bem entendermos. É assim que se faz turismo na Índia. Tem gente que faz tudo sozinho mas seria demais para mim. Isso também esta sendo novo e um pouco estranho porque interagimos pouco com o mundo lá fora e ficamos muito tempo “na bolha”. Melhor assim, porque realmente não estou me sentindo muito à vontade, não consegui relaxar um só minuto. Não bati nenhuma foto com a minha câmera, por duas razões: a primeira é que não vejo ninguém portando uma câmera do mesmo porte que a minha e não sei se é seguro, às vezes bato com a câmera da Raquel. E a segunda é que não tenho vontade de fotografar nada, nenhum assunto me interessa. Consigo ver beleza no caos, mas não consigo ver na miséria. É muita gente em todo lugar, muita buzina, muita sujeira, muito lixo e muitos trombadinhas. Em todo lugar sempre tem alguém esperando uma oportunidade para conseguir tirar alguma coisa de você sem que você perceba. E eles são muito bons no que fazem.

No primeiro dia fechamos o pacote e o motorista já nos levou para almoçar em um restaurante de comida local. Aliás a comida é a melhor parte até agora. O pão Naan é bom demais. Depois fomos andar de riquixá e conhecer o Red Fort e uma Mesquita da Índia que fica logo em frente. Negociamos o preço e seguimos, mas exatamente nessa hora começou a chover e quando chegamos a chuva era tanta que nem entramos no forte. Ensopados seguimos para a Mesquita onde a entrada é livre e de graça mas cada câmera ou celular paga 300 rupias, o equivalente a 5 dólares, ou 30% do que gastamos no almoço. Ficamos na porta observando o vai-e-vem das pessoas. Voltamos para o estacionamento, pegamos o carro e fomos atrás de um banco e de um mercadinho para comprar água. Depois o motorista nos levou para o conhecer o parlamento, a casa presidencial e seus jardins e também uma loja de artesanato local. Cada especialidade tinha um vendedor próprio, então na loja tinham uns 15 vendedores diferentes tentando nos convencer a comprar enquanto andávamos. Mas eles não sabiam que nunca compramos nada. Demos uma volta completa e saímos. E voltamos para o hotel. Uma curiosidade é que o hotel tem umas três vezes mais pessoas trabalhando do que um hotel do mesmo porte em qualquer outro lugar do mundo. É muita gente. E só homens. Isso também acontece nos restaurante que fomos.

No estilo mochileiro, no dia seguinte, sábado, decidimos sair sozinhos para conhecer o Lotus Templo e a Connaught Place. O hotel fica a três quadras da estação New Delhi do Metro só que a entrada fica do outro lado dos trilhos. Portanto temos que passar andando por um viaduto. Somente nesse trajeto se aproximaram de nós três pessoas, em momentos diferentes, puxando conversa e tentando nos orientar para onde “deveríamos” ir. O primeiro disse que era dia de festa e que do outro lado do viaduto estava tudo fechado e que a multidão estava se encaminhando para o viaduto, portanto à tarde tudo estaria fechado, e blá blá blá. Respondi: “então tá então” e “obrigado”. Ele desistiu de nós. Os outros, resolvi utilizar uma técnica diferente: respondia tudo, educadamente, em português. Eles logo desistiram também. O que eles querem é nos levar para uma agência de turismo para nos vender pacotes e passeios superfaturados e que as vezes nem existem. Esse é um dos golpes daqui. Entramos no metro e não tinha muita gente na estação, mas os trens para todo lugar que queríamos ir estavam lotados. E como o metro tem vagão somente para mulheres, os outros tinham, majoritariamente, somente homens. Mas deu tudo certo. Fomos no templo que é em formato de uma flor de lótus, bem tranquilo e bonito. De lá fomos para a Connaught Place, que é uma praça circular com lojas e restaurantes no entorno. Almoçamos em um excelente restaurante, bem acima do nosso “padrão”, mas dentro do nosso orçamento. Comer aqui não é caro.

Depois desse dia vendo a vida como ela é, decidimos sair no outro dia com o motorista até porque os outros lugares que queríamos conhecer não ficavam próximos do metro. No domingo fomos conhecer o templo Gurudwara Bangla Sahib, onde eles servem comida de graça para quem quiser várias vezes todos os dias, no estilo bandejão, as tumbas de Humayun, que serviram de inspiração para o Taj Mahal e o templo Akshardham. Esse templo é o maior templo Hindu do mundo e tudo nele é muito cheio de detalhes. Muito bonito mas me pareceu mais um palácio do que um templo. Depois disso, o calor era tanto que voltamos para o hotel. Passamos o resto do dia na nossa bolha.

No dia seguinte saímos de Delhi com destino a Rishikesh, a capital mundial da Yoga. Não, não fizemos yoga. Acho que ninguém “faz” yoga, as pessoas vivem ela ou não. É um estilo de vida. A cidade não fica longe, uns 230km de Delhi, mas demorou de 6 a 7 horas. A viagem foi surreal. A estrada é infernal, o trânsito é anormal e a forma de dirigir não se aprende em nenhum manual. A rima forçada foi pra fazer uma gracinha, mas no dia não vi nenhuma graça. Buracos são uma constante, 60% dela é mão simples e metade tem pintura no asfalto, na outra metade não existe mão e contramão se não vier carro no contra fluxo. Circulam por ela qualquer coisa que tiver rodas, de carrinho-de-mão a caminhão. E acho que eles não entendem muito de física. Aquela lei básica de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço é testada a cada momento. E juro que vi ela ser quebrada algumas vezes. Chegamos sãos e salvos mas eu estava muito cansado e estressado, então ficamos no hotel e só saímos no dia seguinte.




No outro dia fomos andar por ai para conhecer lugares sagrados, ashram (centros de meditação e yoga) e nos acostumarmos com o ambiente. Começamos atravessando a Ram Jhula, a primeira das duas ponte suspensa sobre o rio Ganges, que deveria ser somente para pedestres, mas motos, vacas e macacos também utilizam. Do outro lado do rio é onde estão as principais atrações. É próximo da Ram Jhula onde fica o Parmarth Niketan Ashram, um centro de meditação e yoga. O lugar é bem famoso e procurado e é onde existe uma cerimônia todo dia. A outra ponte, a Lakshman Jhula, que fica mais perto do nosso hotel, deixamos para o período da tarde. Lá existem alguns templos e o melhor restaurante da cidade com vista direta para o rio e a ponte. O lugar é bem agradável e cheio de estrangeiros. Nos dois dias seguintes ficamos no hotel pela manhã e saímos apenas no final do dia para passear. Fomos acompanhar uma cerimônia nas escadarias do Parmarth. A cerimônia é bonita, cheia de cânticos seguidas de palmas e com todos sentados nos degraus da escadaria olhando para o rio. Quem puxa os cânticos é o Guru do centro. No final, candelabros de velas são acessos e passam de mãos-em-mãos e algumas pessoas colocam pequenas conchas de folha cheia de rosas e incenso no rio. Isso acontece todo dia no amanhecer e anoitecer. Como já era noite, voltamos para o hotel de tuk tuk.

Na volta para Delhi paramos na cidade de Haridwar, umas das setes cidades sagradas da Índia. Fomos ver todos banhando-se no rio, que ali, próximo da nascente, ainda é limpo. A devoção deles é muito grande e bonita de ver. Agora estamos de volta a Delhi e amanhã seguiremos para o Rajastão. A estrada estava melhor ou eu estava mais acostumado, não sei bem. Mas deu tudo certo. Pelo menos aquela lei da física que falei ficou comprovada hoje, não me restando mais dúvidas: um caminhão deu uma encostadinha no nosso carro numa rotatória já em Delhi. De leve. Nada demais. Só pra provar que as leis da física são mesmo universais. Nunca mais duvido.


Valeu.

A tão temida Índia:Delhi e Rishikesh

Índia, Índia... difícil falar sobre ela... a escrita não é fluida como costuma ser, mas sim fragmentada por vários sentimentos que ela nos causa. A Índia mexe com nossas emoções sem dó nem piedade. Ela causa desconforto em ver a pobreza e a sujeira escancaradas a céu aberto, desconfiança das pessoas que te encaram fixamente e a qualquer momento podem te aplicar um golpe, apreensão do trânsito caótico onde você acha que vai morrer a cada 5 minutos com o carro andando na contra mão e buzinando o tempo todo para os outros, que estão na mão certa, saírem da frente. Leva-se um tempo para processar tanta informação...

Dessa vez decidimos contratar um pacote com hotéis definidos e motorista particular todos os dias. Não gosto dessa opção, me faz sentir numa bolha, vendo as coisas lá de cima, não podendo sentir e viver o lugar. Mas foi a alternativa que nos daria respaldo e segurança para poder relaxar, à medida do possível, e ver se encontramos beleza por trás do caos eminente.

Delhi, nosso hotel estrelado é o Krishna, logo atrás

Chegamos por Delhi e no primeiro dia queríamos apenas “sentir” a cidade, fazer aquele reconhecimento de terreno tradicional que o Lucio sempre fala. A ideia era pegar o metro e dar uma voltinha, mas o dono da agência recomendou que fôssemos de motorista já que éramos novos no país. Fomos para Old Delhi onde pegamos um riquixá e andamos pelo Red Fort e Jama Masjid, a maior mesquita da Índia. O desconforto da chuva que começou assim que subimos no riquixa, mais o choque do nosso primeiro contato com a realidade fez com que o passeio fosse bem rápido, só para dar uma espiada.

No outro dia dispensamos o motorista para ter mais liberdade e fomos de metro. Tão cheio quanto o de São Paulo, com a diferença que existem vagões só para mulheres e os demais são mistos. Nem pensei na possibilidade de me separar do Lucio e ir no de mulheres, então fomos no misto que na verdade quase só tem homens. Difícil de se sentir à vontade. Aliás esse é um dos meus incômodos na Índia, só se vê homens, e muitos. Não vi uma mulher trabalhando, mesmo em funções tipicamente femininas como limpeza e cozinha. Asiática então, devo ser a única no meio dos 1,2 bilhões de indianos. O metro funciona, mas a tensão é uma constante principalmente quando chega e sai da estação, onde a vizinhança não é das melhores. Nem pensar em pedir informação e demonstrar que estamos perdidos, o negócio é andar para qualquer lado fingindo saber onde está. Fomos conhecer o Tempo de Lotus, da religião Bahai, aberto a todos, independente da religião que se pratica. Lá dentro não se tem nenhuma imagem para adoração, apenas um ambiente silencioso para cada um rezar a seu modo. Depois fomos para Connaught Place, a região central e mais arrumada da cidade. Seguimos a indicação de um restaurante do Lonely Planet e, apesar de caro, achávamos que merecíamos depois de nos aventurar pelo metro de Delhi.

Lotus Temple

Ok, já sabemos como é o metro mas com motorista é bem melhor. Assim, iniciamos o dia pelo templo Gurdwara Bangla Sahib e foi aí que descobri que as cores podem ser o contraponto da paisagem agressiva da Índia. O contraste do branco do templo com as cores das roupas despertou meu olhar que estava adormecido há 2 dias. A religião sikhs é praticada por 2% da população e prega a união das pessoas onde todos são iguais e bem vindos. Todos o dias voluntários preparam comida para distribuir de graça para qualquer um, independente de onde veio ou de qual classe social pertence. Pudemos conhecer a cozinha e ver centenas de pessoas almoçando. Se quiséssemos poderíamos comer também, mas ainda estava muito cedo para interações. 

Templo Gurdwara Bangla


Refeição para todos

Depois fomos conhecer o Humayuns Tomb que inspirou o Taj Mahal, muito bonito. E por fim o Tempo Akshardham, recém construído em 2005, onde vimos pela primeira vez um buda na Índia, o mesmo que vimos em Hong Kong, mas dessa vez com cara indiana. O templo é enorme, tem esquema rígido de segurança e não se pode tirar fotos. Bonito, mas eu achei grandioso demais para ser um lugar para reflexão.

Humayuns Tomb

Tivemos o primeiro furto da nossa viagem. No templo Gurdwara abriram a minha mochila e levaram minha nécessaire. Nada demais, basicamente alguns remédios de emergência, mas ficou aquela sensação ruim de invasão. Um aviso para ficarmos mais atentos.

De Delhi fomos para Rishkesh, a cidade mundial da yoga onde o Rio Ganges ainda é limpo e pode inclusive banhar-se nele. Bem menor e mais tranquila que Delhi, passamos uns dias em meio à natureza, macacos, vacas, sadhus (santos) e bichos grilos que passam meses meditando e comendo comida vegetariana.

Nós 2 em Rishikesh: Ram Jhula

 Lakshman Jhula
Templo ao lado da Lakshman Jhula

Aliás a comida indiana é irresistível em seu aroma e sabor. Quem precisa de carne com as especiarias da Índia e os pães naan sempre frescos e quentes? E quem precisa de talher se o melhor é comer com a mao usando o pao como apoio? Só paramos de comer o curry indiano quando chegou nossa primeira dor de barriga da viagem. Ficamos de molho uns dias deixando nosso organismo se acostumar com as novas bactérias.

Curry de vegetais

Frango e carneiro ao curry e pao naan

Acompanhamos uma cerimonia religiosa na margem do Rio Ganges no pôr do sol. Foram 30 minutos de reza cantada e no final as pessoas fizeram oferendas de flores e velas sobre o rio. Enquanto ia ouvindo a cantoria me lembrei de ter lido que em uma das vertentes religiosas daqui, não se faz pedidos, e sim agradece o que se tem. E foi aí que me dei conta que na minha andança pelo mundo já fiz muitos pedidos, pedi para as estrelas, para Alá, para Buda, para Jesus. Mas nunca agradeci. Aproveitei então para agradecer, simplesmente por estar aqui, nesse país tão bruto, vendo um mundo tão diferente e aprendendo a lidar com um sentimento a cada dia. E vamos caminhando...

 
Cerimonia às margens do Rio Ganges

"A Índia também pode ser poesia", falei para o Lucio quando tirei essa foto antes da cerimonia religiosa