Estamos em um ano sabático para conhecer o mundo e a nós mesmos. Para isso manteremos nossos olhos, mentes e corações atentos e abertos por onde estivermos. Toda semana faremos um relato do que passou e por onde passamos. Como tudo na vida tem dois lados, serão duas visões sobre os mesmos momentos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Última semana no Japão com gostinho de quero mais

Bom pessoal,

Nessa última semana fomos para Ishigaki, Okinawa. Uma das últimas ilhas do Japão, próximo a Taiwan. Ficamos uma semana completa lá. De domingo a domingo. Nunca tinha ouvido falar de Ishigaki mas depois de pesquisas descobri que aqui é o caribe japonês. Nunca fui no caribe mas se as praias forem tão bonitas quanto as daqui, não sei porque ainda não fui.

Assim que chegamos fomos informados de que um tufão estava se aproximando e que na terça e na quarta não seria possível fazer praticamente nada (o tufão foi na China com pequenos reflexos em Ishigaki). Todas as praias estariam fechadas para banho. Na segunda fomos então direto para a praia mais bonita para não perder a oportunidade. Sabe-se lá como será esse tufão. Kabira Bay é uma praia onde não se pode tomar banho e a principal atração é um passeio de barco com chão de vidro para se ver os peixes e corais. Até então nunca tinha visto tanto peixe e de tantas cores. E o que todos querem ver é o Nemo (ou Nimo como os japoneses falam), o peixe palhaço. Depois fomos para Yonehara onde tem um camping. Como não tinha uma sombrinha se quer na praia nem tomamos banho. Almoçamos e ficamos esperando o horário do ônibus. Os ônibus não são muito frequentes (a ilha é grande) mas são extremamente pontuais. Então é só se programar. Uma curiosidade, o preço do ônibus depende do ponto que você subiu e em que ponto você vai descer. Ao subir você pega um ticket (ou ticketô em japonês) e existe um painel eletrônico informando o preço, a cada ponto os valores se atualizam.

Na terça fomos para a praia do Hotel ANA, próximo a cidade mas ela já estava fechada para banho. Fomos então para o supermercado nos abastecer e aguardar a melhora do tempo. Na terça e quarta o tempo fechou, choveu e ventou bastante. Mas foi só. Na quinta o tempo já estava bom novamente e fomos conhecer a Sunset Beach, uma pequena praia com poucas pessoas e bem distante. As praias aqui são quase selvagens, com nenhuma (ou pouca) estrutura, algumas tem rede de proteção contra água-viva e apenas uma loja/restaurante/afins. Ali pode-se alugar guarda-sol, boia, snorkel, pé-de-pato, almoçar etc. Nunca paguei tão caro por um guarda-sol: US$ 20,00. Passamos o dia na praia.

Na sexta fomos para outra praia recomendada, a Sukuji Beach. Ainda na estação de ônibus conhecemos um senhor japonês (tiozinho), que estava hospedado no mesmo hostel e ia para a mesma praia. Ficamos conversando de tudo um pouco e a uma hora de viagem passou rápido. Ele mora em Tóquio e é representante de uma confecção que usa tecido de bambu, nunca tinha ficado em hostel. Ele misturava o inglês com o japonês e com mímicas e caretas conseguimos ter uma conversa muito agradável. E ai a Raquel conseguiu resgatar várias palavras em japonês que ela aprendeu quando criança mas tinha esquecido. A praia era muito bonita com boa estrutura (coisa rara) e bastante sombra, mas a profundidade do mar era igual a de uma piscina infantil. Por causa disso, algumas pessoas se ariscaram em tomar banho além da rede de proteção. E o tiozinho foi queimado por uma água viva na mão. Ele lavou a mão, passou uma loção que tinha disponível na praia e também gelo. Passamos o dia na praia. À noite saímos para jantar e no primeiro restaurante que paramos para ver o cardápio demos de cara com o tiozinho japonês. Ele nos convidou para jantar junto com ele e aceitamos. Aquele era um restaurante que provavelmente não entraríamos pois tinha poucas fotos no cardápio. Só entramos em restaurante com fotos. Tem que pelo menos saber o vai comer. E ele pediu tudo que queríamos: o pepino goia, famoso da região, tofu, rámen, lula frita, porco com abacate, peixe frito, sashimi e claro, sake. Todos os pratos foram divididos entre todos, menos o meu rámen. Conversamos a noite toda até o restaurante fechar. Na hora de pagar ele disse que a conta era dele e que somente na próxima vez, no Brasil, nós poderíamos pagar. Ele foi muito gentil, explicou tudo que queríamos saber, curiosidades, melhores comidas de cada lugar, tudo. No final ainda nos agradeceu pela companhia e pelo belo dia. Nós é temos que agradecer. E muito.

Sunset Beach

Sukuji Beach
 No sábado fomos para um passeio de barco com snorkel em algumas ilhas da região. E foi maravilhoso. A cada parada víamos mais e mais peixes de todas as cores, tamanhos e formas. Foi o dia todo assim e no final ainda paramos em um lugar onde os peixinhos se aproximaram tanto que pareciam comer na nossa mão. E uns até tentaram comer a ponta dos meus dedos. Um dia perfeito: muito sol, mar calmo, boa companhia, boa assistência, locais inesquecíveis e praias paradisíacas. Junto conosco estavam uma australiana que mora no Japão, uma canadense que mora na Coreia (as duas professoras de inglês), e um japonês de Tóquio que foi pra copa e conheceu o Brasil todo. Assistiu jogo em Manaus, Recife, Salvador e Brasília, e ainda foi para o Rio de Janeiro e São Paulo. E adorou tudo. Experimentou de tudo e até comida japonesa em São Paulo. E aprovou.

Ilha particular e 1° local de mergulho






À noite, eu e Raquel saímos para jantar. Pedimos de tudo um pouco como na noite anterior e bebemos cerveja. Foi caro mais foi uma excelente despedida. No dia seguinte seguimos para Fukuoka, nossa última cidade no Japão.

O que tem em Fukuoka? Não sei, só sei que é mais uma cidade do Japão com restaurante para todo lado, fácil acesso, ruas limpas e muitas lojas. Tem tudo que tem um Tóquio só que bem menor. Não visitamos nada, apenas restaurantes. Foi nossa despedida gastronômica do Japão. Ficamos apenas um dia inteiro e consegui cumprir uma obrigação e satisfazer dois desejos. A obrigação era fazer meu exame de sangue periódico prometido ao Dr. Fábio. Feito. Os desejos eram ir em um Onsen e comer muito sashimi. Almoçamos em um restaurante de esteirinha e no final do dia fomos para o onsen, a sauna japonesa. Não sabia nade de como me portar num onsem e a Raquel me informou apenas na entrada: tomar banho antes de entrar nas “piscinas”. Ok. E o banho era sentado num banquinho de frente pra parede com sabonete e shampoo disponível. Ok. No Japão, QUASE como os japoneses. Levei minha sunga e não fiquei nu como todos os japoneses. Devia ter ali uns 40 japoneses nus e eu. Não me intimidei. Fiz cara de ocidental que não tá entendendo nada e segui apesar dos olhares. São vários ofurôs comunitários ou individuais com água em torno de 40°. Muito legal. Na próxima vez faço serviço completo. No jantar fomos em um restaurante que é uma barca e você pesca o próprio peixe. Muito bom. Recomendável. Pesquei um peixe e pedimos meio sashimi e meio frito com arroz, tofu e outras coisinhas. E claro, Sake. Fechamos com chave de ouro nossa etapa no Japão.

Restaurante em Fukuoka

Valeu.

Sayonara Japão

Depois de percorrer o roteiro padrão Tokyo, Kyoto e Hiroshima, queríamos fazer algo diferente e fomos para a ultima ilha ao sul do Japão, Ishigaki, passar uma semana nas mais belas praias do país. A ilha é muito procurada pelo turismo local, não tanto pelo estrangeiro. O Lucio era um dos 5 ocidentais na ilha. Sem a ajuda da mae e da Ligia, tivemos que caprichar nas mimicas e contar com a super boa vontade dos japas, que lá são mais descolados, com cara de praia. De início aprendemos que toda palavra em inglês que termina com uma consoante, deve-se acrescentar um “o” no final. Ticket vira “tíqueto”, public market vira “publico marketo”, sunset vira “sunseto”, e por aí vai. De resto, como sempre, a linguagem universal que todos entendem, o sorriso.

Apesar de ter pego um resquício de um tufão que fechou o tempo e as praias por 2 dias, pudemos nos esbaldar nas praias de areia branca, mar azul e água quente. Conhecemos o principal ponto turístico da região, Kabira Bay que tem uma paisagem linda e um passeio de barco com aqueles vidros no chão que deu para ver vários peixes coloridos, incluindo o nemo. Passamos outros 2 dias nas praias Sunset Beach e Sukuji Beach, levamos nossos bentos, como os japas, e nos largamos debaixo do sol.

Nós 2 em Kabira Bay

Sukuji Beach

O grande dia foi o último, que contratamos um passeio de snorkeling nas ilhas vizinhas. O barco fez 4 paradas, uma mais bonita que a outra, mostrando que no Japão também tem mar azul celeste cor de manteiga. Me senti dentro de um aquário, tamanha a quantidade de peixes coloridos e a transparência da água. Já fizemos snorkeling algumas vezes, mas com tantos peixes, tantos corais, tantas cores, foi a primeira vez. Deslumbrante.

Praia que fizemos snorkeling... olha a cor da água

Lucio no "aquario"

Nós 2 vendo milhares de peixes e corais coloridos

No dia que fomos para Sukuji Beach encontramos no ônibus um senhor que também estava hospedado na nossa guesthouse e começamos a conversar, 25% em inglês, 25% em japonês e 50% em deduções. Ele tem 66 anos e é representante comercial de marcas de roupas nas grandes lojas de departamentos do país. Ele não tem filhos, estava só, e disse que, nessa idade, ele quer aproveitar a vida, viajando e relaxando. O que sobrar de tempo, ele trabalha. E passamos o dia na praia, cada um no seu canto, às vezes uma conversinha aqui, outra ali. À noite, eu e o Lucio estávamos na rua procurando um restaurante para jantar e ele, que já estava sentando em um, nos viu e foi até a rua nos convidar para jantar. E tivemos uma janta especial. Ele dividiu os pratos que já tinha pedido, pedimos outros, bebemos, comemos as comidas típicas de Okinawa que até então não tínhamos experimentando por falta de entendimento dos cardápios, ele nos ofereceu saque, enfim, nos divertimos conhecendo um pouco mais desse país e desse povo. No final, ele fez questão de pagar a conta toda.

De lá, já com cara de final de festa, fomos para Fukuoka. Sem nada de expectativas, fomos surpreendidos pela agitação da cidade, com suas infinitas lojas de departamentos, outdoors luminosos e coloridos e um rio charmoso que corta toda a cidade quebrando um pouco a loucura de uma metrópole.

Lá tivemos a experiência de um banho japonês, o onsem. Tinha lido que era bem simples, chegar, pagar, tomar banho e aproveitar o ofuro. Ninguem disse que o uso de biquíni era proibido. Bom, lá fomos nós, homens de um lado, mulheres de outro. Foi uma experiência quente, bem quente. São diversos ofuros, todos com água aquecida naturalmente, chegando a 40 graus. Alguns tem hidromassagem, outros são feitos de pedras e outros são só uma banheira grande. Os japas passam horas lá dentro, alguns até tiram uma soneca. Confesso que me senti meio intimidada no meio das velhinhas. Mas valeu a experiência.

Para nos despedir do Japão, usamos nosso “caixa 2” pela segunda vez e fomos jantar em um restaurante onde você pesca seu próprio peixe. As mesas no estilo japonês são distribuídas em 2 barcos que são rodeados por um riozinho, na verdade, só uma faixa de água, onde tem alguns peixes famintos. O Lucio pescou um peixão que foi preparado, metade sashimi e outra metade grelhado. Delícia, mais fresco impossível. De acompanhamento gorran, missoshiro, tchawanmushi, tofu frito, tsukemono. Com direito a saque e sobremesa de moti e sorvete. Em grande estilo.

Lucio e seu peixe, ele pescou de verdade, com vara, não foi com essa rede fácil

Nossa janta, graças ao Lucio

Comer no Japão merece um capítulo especial. Além do aspecto emocional, de lembrar comida de casa, tem a facilidade de encontrar restaurantes em qualquer lugar, a qualquer hora, muitos com fotos das comidas e preços ao lado. Se a foto estiver boa, não tem erro, é só apontar para a foto do menu. Erramos só uma vez, pedimos fígado com legumes achando que era carne. A cultura do bentô também possibilita encontrar marmitex barato em qualquer loja de conveniência, onde mesmo a comida fria é deliciosa. Por último, ter a companhia da Ligia e da mae, amantes da gastronomia japonesa, tornou todas as refeições um momento esperado, era um evento procurar um restaurante, decidir o que comer, tirar foto e ir embora feliz de barriga cheia. O resultado são 2 kilos a mais. Somados a outros 2 da Grecia. Foram inúmeros lamen, udon, guioza, kare, tsukemono, missoshiro, sushi, sashimi, tonkatsu, domburis e muito, muito gorran.

Máquinas de bebidas em todos os lugares

Gorran com sashimi... simples e delicioso, em Tokyo

Comprando o "ticket" da refeição, nosso café da manhã japa em Tokyo

Domburi com carne de porco, receita de Hokkaido, em Tokyo

Nosso primeiro bento no trem, de Tokyo para Kyoto

Os melhores, e mais caros, sashimis, em Kyoto

Nós 3 comendo moti assado na rua, em Nikko

Tonkatsu, hummmm, em Kyoto

Sushi de esteirinha, em Osaka.... olha a cara de felicidade das duas...

Última janta em Hiroshima patrocinada pela mae e pelo Maques, comida típica japa, nunca pediria esse prato, pedi porque a mae pediu, e foi a refeição que vai me fazer lembrar o Japão

Kare, não foi o melhor, mas foi o mais típico,. em Fukuoka

Lamen, campeão, em um restaurante do lado do hotel em Tokyo que fomos várias vezes

Me despeço do Japão muito realizada. Passamos pelo difícil Monte Fuji, pela loucura de Tokyo, pela serenidade de Kyoto, pela história de Hiroshima, pelas praias de Ishigaki e pela surpresa de Fukuoka. Mas o melhor daqui são os japoneses, que juntos, constroem uma nação que conquista pela honestidade e respeito. Aqui foi um país que preencheu a minha alma, tão diferente e tão acolhedor, onde descobri porque minhas pernas são grossas e tortas, e não adianta acordar às 5h30 da manhã para malhar, que não vai mudar. Conhecendo minhas raízes. Sensacional. Arigato gozaimasu.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Kyoto, Hiroshima e despedidas

Bom pessoal,

Chegamos em Quioto no domingo à tarde e fomos direto para o hotel ou melhor para a Ryokan: tradicional pousada japonesa. Os sapatos ficam na porta de entrada (que nunca é trancada mesmo sem ninguém na recepção), o quarto é de tatame e o colchão é um futon, a mesa é baixa e senta-se no chão, o banheiro é compartilhado e a cozinha está a disposição de todos, inclusive da família que é dona e mora também ali. Eles usam as mesmas facilidades. Nosso quarto era grande e ficamos eu, a Raquel e a Ligia em um e a Tia e o Marques em outro. Ficamos no térreo perto do banheiro e da cozinha. Em relação a hospedagem uma das melhores experiências que já tive. Muito tradicional no Japão. Quioto foi a capital do Japão mas é a eterna “Velha Capital” e a “Cidade dos Samurai”. Musashi viveu aqui. O primeiro jantar tinha que ser especial: comemos sashimi em um restaurante chique, caro e delicioso. Os melhores peixes até o momento.

Ficamos apenas 4 noites e tivemos que escolher o que ver e o que deixar para a próxima vez pois é impossível ver tudo em tão pouco tempo. Além disso, nesse mesmo período ainda tinha o maior festival da cidade (e um dos três maiores do Japão), o Gion Matsuri. Elencada as prioridades, no dia seguinte seguimos para o Templo Dourado. Um pequeno templo, dourado, que com o a luz do sol deve até cegar (mas estava nublado), no meio de um lago e cercado de um belíssimo jardim. De lá seguimos para a Rua de Bambu que é quase fora da cidade. Valeu pelo inusitado, mas é apenas uma rua com bambuzal dos dois lados que transforma toda a área numa verdadeira floresta amazônica de tão abafada e quente que fica. E ainda bem que o dia estava nublado. Seguimos então para a parte central da cidade para almoçar, comemos um Tonkatsu maravilhoso e voltamos para a ryokan para descansar pois o dia estava realmente quente e abafado. À noite fomos para a primeira noite do Gion Matsuri. Muitas barraquinhas de comidas nas ruas, muita gente e também os carros alegóricos com suas lanterna e cores. Mas nesse dia as principais ruas ainda estavam aberta para os carros.
Templo Kinkaku-ji, o Templo Dourado

Rua de Bambu
 No dia seguinte fomos para Nara, cidade que tem um dos templos mais importantes e antigos do Japão, o Todai-ji. O Tori da entrada do templo já impressiona e quando você entra no pátio onde está o templo é tudo muito grandioso. É tudo gigantesco. É impressionante. O tamanho das portas, a altura, os detalhes, tudo. E dentro do templo tem o maior Buda que já vi. É o maior Buddha Vairocana de bronze do mundo (http://www.sacred-destinations.com/japan/nara-todaiji). Ali orei, agradeci por tudo e pedi mais um pouquinho de proteção. Nunca é demais. Depois seguimos um roteiro sugerido pela Ligia: Osaka, a segunda maior cidade do Japão. Compramos bentô na estação de Nara e pegamos o trem. Chegamos em Osaka e seguimos direto para o mercado de rua chamado Namba. E mais uma vez me surpreendi com uma rua só de comidas, só de restaurantes. Cada restaurante mais chamativo que o outro com caranguejos, polvos e baiacus gigantes nas fachadas. Osaka é conhecido pelas comidas e comemos num restaurante de esteirinha (aquele que os sushis vem em pratinhos numa esteira que passa por todo o restaurante). Osaka foi uma grata surpresa pois não estava no roteiro. Voltamos para Quioto de Shinkansen e ficamos na ryokan esta noite.

Templo Todai-ji

Buddha Vairocana de bronze






No dia seguinte seguimos, somente eu e a Raquel, para conhecer a floresta com 10.000 Toris vermelhos. O lugar chama Fushimi Inari Shrine e é ponto obrigatório. A estação de trem é bem em frente ao templo principal e início dos Toris que estão coladinhos um no outro fazendo um corredor montanha acima. E dá-lhe escada. No total foram quatro quilômetros num calor dos infernos (suei tanto que parecia que tinha feito xixi nas calças). Nos encontramos novamente com os três em Quioto e seguimos para conhecer os 1001 Budas no Sanjusangedo Hall e depois fomos para mais um impressionante templo: o Kiyozumi-dera. Um templo suspenso por toras de madeira na beira de um penhasco. Bem em baixo dele tem uma fonte onde se encontra a água mais pura do Japão de acordo com a tradição. Entramos na fila e enchemos nossas garrafas. Naquele calor poderia colocar uma rede debaixo da fonte e ficar o resto do dia. 
Fushimi Inari Shrine
Templo Kiyozumi-dera
 À noite fomos na festa de rua da véspera do dia do desfile, que o ponto alto do Gion Matsuri. As ruas estavam lotadas de gente e barraquinhas de comida. Agora todas as ruas estavam fechadas e havia tanta gente que tinha até mão e contramão para se caminhar. No outro dia fomos ver o desfile dos carros que eram puxados por mais de 30 homens. O carro é tipo uma carroça gigante, alta e no topo tem uma bandinha. E o melhor de tudo é ver eles fazendo a curva no final da rua, já que o carro não tem giro. Eles literalmente arrastam o carro de lado encima de esteiras de bambu ao som dos sinos e tambores e dos huuuuu e aplausos dos espectadores. Nesse mesmo dia fomos para Hiroshima com a Tia e o Marques e tivemos nossa primeira despedida. A Ligia voltou para Tóquio e no dia seguinte voltou para Nova York onde mora. Foi muito bom ter sua companhia nesses dias no Japão. Primeiro pela companhia, segundo pelas bebedeiras e depois pelas traduções em supermercados e restaurantes. Andar com tradutora deixa tudo mais fácil. Arigato Gozaimasu.

Gion Matsuri
Em Hiroshima, no dia seguinte fomos primeiro conhecer a cidade de Miyajima onde tem um Tori e um templo no mar. Quando a maré sobe o templo fica como se fosse uma ilha. Tudo em vermelho alaranjado bem chamativo. Muito bonito. E depois do almoço fomos conhecer o museu da Bomba Atômica e depois o Domo, que resistiu aos efeitos da explosão apesar da proximidade, em Hiroshima. 

Miyajima
Tori gigante
A bomba, lançada ha 69 anos atrás, teve um efeito devastador na cidade. Mais de 140.000 pessoas morreram antes de completado o primeiro mês. Menos de 20 prédios em um raio de 2Km ficaram em pé. Foi um ataque surpresa, sem aviso prévio. Hoje o Japão reconhece o mal que fez em outros momentos de guerra e acredita que isso foi uma lição (está no museu). Hoje não existe exército no Japão. Na Praça da Paz existem dois monumentos principais (além do Domo): o primeiro é um altar seguido de um espelho d´água e depois uma chama eterna. O espelho d´água é uma lembrança a todos aqueles que morreram por falta de água. Muito simples e muito forte. E o outro é um sino com um Tsuru embaixo. Tsuru é um origami de uma ave sagrada, diz a lenda que ela vive 1.000 anos e caso você faça mil origamis, você terá um desejo atendido. E virou símbolo de esperança e perseverança depois da história de uma menina que viveu aqui. Quando a bomba estourou, Sadako tinha dois anos e aos 12 descobriu que tinha leucemia. Ela escutou sobre a lenda e passou a fazer os origamis na esperança de sobreviver. Ela morreu antes de completar os 1.000 Tsurus dos efeitos da radiação. Mas os amigos terminaram e ainda fizeram uma campanha de arrecadação que juntou dinheiro e construiu o monumento na praça. Já fiz muito Tsuru uma vez. A Talita, minha sobrinha japonesa, teve um momento muito difícil e toda a família fez Tsurus para ajudar. Fizemos no total uns 4 mil Tsurus. Na saída do hospital ela doou três mil Tsurus para as outras crianças pois ela só precisava de mil. Ela tinha apenas 8 anos. Hoje ela é uma moça, linda, está na universidade, namorando e só os pais, Edidio e Sayuri, acham que ela ainda é um bebê. Coisa de pai e mãe.

O Domo
Praça da Paz
Tsuru
No dia seguinte chegou o momento de se despedir da Tia e o Marques. Eles foram para Tóquio e nos para Fukuoka e depois Ishigaki, Okinawa. Seguimos para a estação, compramos um bentô e nos despedimos com um grande aperto no coração. Foi muito especial encontra-los no Japão, escutar as histórias dos seus pais e conhecer um pouco mais dessa família que me adotou.

Valeu.

Isso é Japão

De Tokyo, validamos nosso JR Pass e pegamos o shinkansen para Kyoto. Comer bentô no trem é outra experiência típica do país. Antes de embarcar, compramos nossos bentôs na própria estação e assim que o trem partiu começamos a ouvir o barulho de todo mundo abrindo suas refeições. E quando chegam no destino, todos descem com seus respectivos lixos. Isso é Japão.

Andar de shinkansen é uma maravilha de facilidade. Os trens são pontuais, confortáveis, rápidos, frequentes e não tem necessidade de fazer reserva. Prático e funcional. Isso é Japão.

Kyoto é a cidade dos templos. E quem fala que templo é tudo igual é porque nunca foi para lá. Cada um tem a sua beleza, a sua grandeza, o seu significado, a sua emoção.

Começamos pelo mais famoso, o Kinkaku-ji, um templo pequeno de dois andares, folheado a ouro, na beira de um lago, rodeado por um jardim típico japonês. O que lhe falta em tamanho, é compensado pela sua beleza, formando um dos principais cartões postais do país. 

Nós 5 no Kinkaku-ji

Kiyomizu-dera, o Templo da Água Pura, é um daqueles templos antigos, imponentes, bem cara do Japão. Na verdade é um complexo com vários templos e a grande atração é o principal, que tem uma varanda de madeira em um precipício construída apenas por encaixes, sem usar um prego sequer.

O Templo Fushimi-Inari é coadjuvante perto dos seus 10.000 toris de cor laranja, todos com inscrições em japonês, em um caminho de 4 km pela floresta. O Deus do Templo, Inari, provê prosperidade aos seus seguidores, então as pessoas e empresas compram toris e doam ao templo fazendo com que o número de toris não pare de crescer. As inscrições são os nomes das pessoas que os doaram. Os toris variam de 1.750 a 13.000 dólares cada.

Nós 2 em Fushimi-Inari

O Sanjusangendo, ou Templo dos 1001 budas, impressiona pelas estátuas de madeira em tamanho natural, dispostas em fileiras, onde um buda é diferente do outro. Quem os protege são as 30 estátuas que representam vários deuses, desses, só 2 eram humanos. Foi bem interessante.

Visitar templos é a cara do Japão.  

Japão também é Bamboo Grove, um caminho todo encoberto de bambus, abafado, quente, úmido. E único.

Caminho de bambu

Fizemos um day trip para Nara e conhecemos o Tempo Todaiji que é a maior construção de madeira do mundo. Dentro tem o Daibutsu, o maior buda dentro de um templo no Japão, com quase 15 metros de altura. Me emocionei ao me deparar com o templo, tão poderoso aos meus olhos. Lindo, grande, imponente e suave. Foi o momento que me tocou, que eu me dei conta que estava do outro lado do mundo, tendo a oportunidade de ver coisas que cresci ouvindo. Tão distante, tão perto, tão inimaginável, tão familiar. Surpreendente. Japão dentro de mim.

A incrível visão deTodaiji

No mesmo dia, passamos por Osaka, segunda maior cidade do Japão e conhecida pela comida de rua. Uma loucura. O lema deles é “comer até cair”. Isso também e Japão.

Em Kyoto presenciamos uma das 3 maiores festas do país, o Gion Matsuri, uma festa de rua que reuniu 150.000 pessoas. Tradição em cima de tradição, com os carros alegóricos, barracas de comida de rua, músicas típicas e quimonos. O que mais me impressionou nessa festa foi a organização e limpeza. Mesmo com esse número de pessoas, um lado da rua só ia e outro só voltava. Tinha rua que era sentido único. Guardinhas em todos os lugares orientando pessoas e carros. A cada esquina um quiosque de lixo reciclável. Isso é Japão!

De Kyoto partimos para Hiroshima. No mesmo dia conhecemos Miyajima e o incrível templo sobre as águas e a história de Hiroshima, passando pelo museu e pela Praça da Paz. Saí do museu calada e a mãe falou que na primeira vez que ela foi para lá ela saiu tão pesada que não conseguia falar nada. O mesmo aconteceu comigo. Uma história tão triste que mal dá para acreditar que é tão recente. Mesmo não querendo, isso também é Japão.

Memorial da Paz em Hiroshima

Nós 4 noTori de Miyajima

Templo no mar em Miyajima

A brincadeira do “isso é Japão” veio porque de cada 3 frases que eu falava, 1 era essa. A cada surpresa e encanto eu soltava um “isso é Japão”. 

Em Kyoto nos despedimos da Ligia e em Hiroshima da mae e do Marques. Foram 2 semanas especiais, completamente fora da nossa rotina de casal mochileiro. Além dos nossos tradicionais dois lados da mesma viagem, compartilhamos mais 3 visões, cada uma trazendo um olhar, uma lembrança, um sentimento e muitas, muitas compras. Muito obrigada pela disponibilidade de nos acompanhar e pela disposição de andar o dia todo debaixo de um calor de 35 graus, subir e descer escadas infinitas e comer em restaurantes baratinhos. Ficamos muito felizes de dividir nosso encanto pelo Japão com as pessoas mais queridas de nossas vidas. Depois desse “furacão”, hora de retomar nosso sabático a dois e continuar nosso caminho.